19 de jul de 2011

:: Nubífugo ::

Acho que ainda a ouço.


Vejo-nos subindo as escadas, aqueles dois lances, e lembro de quando o fazia com o braço rodeando sua cintura. Meio desajeitado, meio rindo, meio bêbados, nos levávamos até a porta da sua casa, onde entrávamos convencidos de que fazíamos silêncio, certos de que não acordaríamos a amiga com quem você dividia o apartamento; ainda que soubéssemos, na verdade, que de dentro do seu quarto ela suspirava e lamentava o sono interrompido.


Lembro quando jogava-me em sua cama sem preocupar-me com o avançado da hora, sem que você pensasse em como estava o seu cabelo ou suas roupas, e lembro que ríamos sem compromisso ou intenção, deixando-nos dormir abraçados, para despertarmos a qualquer hora da manhã, ainda meio vestidos, meio cansados, apenas para terminarmos de nos despir e deixar que o dia corresse. Lembro, ainda, de quando chegávamos ansiosos e afoitos, arrancando as roupas um do outro, num frenesi que não via fim até que, esgotados, éramos embalados pelo sono que nos fazia acordar apenas quando o sol inclemente atravessava a fresta da janela e nos cutucava os olhos.


Sei que ainda a ouço, mesmo passado tanto tempo, mesmo passada uma vida.
Mas sua voz ressoa e me chama, de algum lugar escondido, de algum ponto em meu coração que não se quer fechar e que espera, incansável, um aceno que surja no horizonte.


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Publicado por Renato Alt

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