31 de jul de 2011

:: Piáculo ::

Já se vão algumas horas desde que abri o arquivo, e já se vão incontáveis vezes em que o cursor some e reaparece, desafiando-me a empurrá-lo para a direita com meia-dúzia de palavras que valham a pena nascer.


Não sei, verdade seja dita, se as encontrei. Mas sei que há olhos que as cobram, que exigem algo a ver na tela, ainda que todo esse esforço - e acredite, nada que valha a pena ser escrito o é sem ele - seja depois resumido por um transeunte como "vazio" ou qualquer termo desses que vêm aos borbotões quando a intenção é falar mal. Ninguém que lê sabe a dor do parto que antecede a concepção das palavras; e só quem as cria pode vê-las transformando-se em algo que jamais planejara para elas. Daí, talvez, a proximidade entre as três grandes ordenanças da vida: o plantio de uma árvore, a geração de um filho, a escrita de um livro.


Esforço-me por buscar coisas desta ou de qualquer realidade, busco nos recantos da imaginação uma história que apresente-se e me peça para ser contada, como creio que fazem todas as boas histórias, mas vejo-me encurralado pela insistência de um passado recente que recusa-se a desaparecer, expulsando com violência qualquer outra coisa que insinue ganhar corpo.


E esses pensamentos que me invadem são sempre os de você: da maneira como se jogava, risonha, em sua camisola preta, sobre a cama grande demais, e como brincava comigo de esconder seu corpo, ainda que quisesse que eu o descobrisse o quanto antes. Sei, ao menos, que nunca me faltou fascínio ao contemplá-la nua, despreocupada, tentando descobrir em meus olhos e em meu meio-sorriso a multidão de pensamentos que acotovelavam-se buscando vida; e a vida, haveriam de conformar-se todos eles, resumia-se tão simplesmente a vê-la ali, à minha espera.


Eu, suspirando, esperava-me digno de tudo aquilo.


Mas com seu sorriso enorme e despreocupado, você enchia o ambiente de leveza e de perfume e de alegria tal que não cabia qualquer mesquinhez que esses meus conceitos pré-formados de mim mesmo gritavam aos meus ouvidos, querendo apenas, de volta, a mesma despreocupação que dois amantes deveriam, ora essa, compartilhar acima de qualquer outra coisa.


E lembro de nós dois, de forma que, garanto, jamais esquecerei, ainda que agora a veja de tão longe, desvanecida no horizonte de um pensamento.






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Publicado por Renato Alt

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