8 de ago de 2011

:: Anecúmeno ::

Eu percebi quando, pela manhã, os ventos vieram, e bateram à porta, e, envergonhados, desapareceram.


Havia música tocando em algum lugar, e foram eles que a trouxeram, mas ainda assim ficaram à porta, bateram, e não os atendi: ocupava-me do que havia aqui dentro, ainda que, aqui dentro, houvesse apenas eu, e que isso não poderia significar qualquer coisa que não um universo inteiro: onde nascem e morrem criaturas e mundos e significados e coisas e sons e cheiros e sabores e sensações a todo segundo, a todo fragmento de pensamento, como as fagulhas que escapam das brasas de uma fogueira para alçar seu único voo rumo ao firmamento, sabendo que apagarão em breve, mas nem por isso menos dispostas a tentar.


Respiro fundo esse ar distante, esse ar que não sei como cheguei a experimentar: era improvável, afinal; quem sou eu, ou quem é o que quer que seja, para que lhe sejam apresentados tantos horizontes, tantas cores, tantos mundos tão diferentes daqueles nos quais nasceu, ou onde cresceu, e onde lhe imputaram tantas verdades que não se baseiam em nada a não ser em meras convicções vazias do que se acredita serem verdades indubitáveis, imutáveis, eternas.


Respiro o cheiro que vem do mar, vejo as cores passeando, e penso na infinidade de quilômetros que me separam daqueles que me conhecem e penso se, daqui, consigo também me ver à distância, e com certa alegria percebo que sim: não sou aquele que ficou lá, entrando e saindo de escritórios carregando problemas que jamais concebi, mas sou este que está aqui, distante, perdido inclusive de mim mesmo, e, assim, finalmente encontrado, centrado, ajustado.


Não sou daqueles que se coloca e conforma: sou dos que buscam, eternamente insatisfeitos, mas nisso encontrando, acredite, satisfação: o inconformismo de saber que a vida é muito mais do que aquilo que apresentam, e muito mais do que o comer e vestir e falar e defecar e sorrir e recomeçar, porque não há quem não seja do tamanho do mundo, não há quem não seja, em si, todos os outros, e essa é a maravilha e fardo que carrego, ora arrasto, ainda que tanto de mim se desprenda pelo caminho em forma de palavras mal construídas e ideias mal torneadas.


Mas sigo e entendo, sigo e enfrento, e se comigo houver quem quiser decifrar, convido: é vida demais para carregar sozinho.







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Publicado por Renato Alt

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