21 de ago de 2011

:: Nubífero ::

Sim, eu a ouço, e entendo: não falta muito agora.


Algumas coisas daquela gaveta, eternamente bagunçada, faço questão de guardar.


"Lixo", diz você, e agora já não me ofende como costumava. Se é assim, levo o que representa: os ingressos para a ópera que já estavam esgotados, o canhoto para a viagem de última hora que resolvemos fazer, a foto desfocada que pedimos para alguém, em sua correria, tirar para não deixarmos passar o momento. Do que resta, faça o que quiser. Tenho o suficiente em minha memória para saber que o que passou, claro, passou, mas não precisa ser desprezado ou esquecido: foi o que tivemos, e foi tudo o que poderia ser, mas acabou. Não porque não deu certo, ou porque não era para ser ou por seja o que for: a vida, simplesmente, reserva particularidades que nunca conheceremos; mas a parte dela que dividi com você, não trocaria por qualquer outra lembrança.


Agora que se oferece para me acompanhar até a porta, prefiro que me deixe seguir sozinho. Me acostumei ao seu sorriso que antecipava o reencontro, e prefiro não conhecer aquele que só aponta a despedida. 


Sigo para a noite, para o carro, para o caminho mais longo que puder encontrar até minha casa; a tentativa inútil, infantil, de prorrogar alguma coisa que sequer sei direito qual é. Mas talvez em alguma música, em alguma esquina, esteja a resposta.


Eu a deixo com meu sorriso e com a certeza de que nada mais será como antes, ainda que as promessas de nos mantermos próximos sejam sabidamente mentirosas: é o que resta quando algo nos é tirado.


Então já vou, ainda que seja difícil virar e seguir. Avanço pelo corredor no esforço de não olhar para trás. Melhor para nós dois. E que venha, enfim, o que mais se apresentar agora.


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Publicado por Renato Alt

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