27 de set de 2011

~:: MUM ::~

[Estou concorrendo ao prêmio na categoria "literatura" do TopBlog. Peço, por favor, seu voto. http://bit.ly/votenoaperte  Obrigado!]

Aquilo não era Índia.


Não digo "aquilo" com o desprezo que a palavra carrega, mas porque Goa, com suas pessoas e comida e coisas, não eram Índia. Eram boas-vindas, uma sala onde se recebe alguém por um pouco de tempo e, se esse alguém não vai embora e insiste em conhecer o restante da casa, enfim é levado aos aposentos internos.


Agora, vou para os aposentos internos.


Mumbai.

Chego com a expectativa de quem veio com a idéia romântica do que era a índia, reforçada pelos costumes de Goa e suas grandes influências ocidentais. Tudo me pega de surpresa: o calor, mais uma vez, o assédio dos taxistas que não dão qualquer centímetro de espaço, e a assombrosa pobreza que cerca o aeroporto doméstico - e também o internacional, como vim a  descobrir. Através da minha janela, na primeira parada em um sinal, uma garota com seus dezesseis anos - linda! - sorri para mim e pergunta como estou. Fragilizado pelo cansaço da viagem, pela fome que se acentua por minha simples covardia de comer o que me fora oferecido antes, me fazem olhar para ela com encantamento e dor: sei que nenhuma rupia que lhe ofertasse faria diferença. Ela veste um véu vermelho e dourado, ostenta uma argola em seu nariz, e profere palavras ininteligíveis para o motorista, que tenta a todo custo enxotá-la, enquanto tento eu, a todo custo, ficar indiferente, tarefa que se mostra dificílima.


Os arredores do aeroporto são indescritíveis. Uma pobreza que, acreditem, assume ares diferentes daquela pobreza brasileira: há aqui um desdém, um pouco-me-importa que foge à compreensão dos mais indiferentes brasileiros. O vidro do carro, que subira até fazer ranger as engrenagens do carro, isola-me um pouco de tudo aquilo, deixando-me neste pequeno mundo de quatro rodas, vagando por aqui e por ali nas ruas da cidade.


Chego, assustado, ao hotel que reservei: está no meio de uma favela, e da janela ela é tudo o que há para ver. Junto a isso, uma febre que me rouba a razão, que me faz querer a terra natal como nunca julgara possível, e que enfim mostra todo o sentido de quem, antes, escreveu com muito mais propriedade: "as aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá."


Mas há a beleza, e ela mostra-se em todo canto: nos pontos onde é esperada, claro, onde apinham-se turistas que tiram fotos e logo metem-se de volta em seus carros, mas também no povo para o qual o estrangeiro despende tempo, e atenção: estão prontos  a convidar para um chá, para uma história, para a honra de seus feitos para libertar-se do domínio inglês; o Portâo da Índia, a Lavanderia, a Estação Vitória: antes símbolos dos estrangeiros que ocuparam estas terras, hoje estão expostos com o orgulho de uma nação que começa a ficar consciente de si mesma, e, assim, confiante para mostrar-se ao mundo, com a beleza e estonteante particularidade que jamais permitiu que lhe fossem roubadas: felizes somos nós que podemos, agora, conhecê-la, ainda que tão superficialmente, tão "turisticamente"; ocidentais jamais entenderão os quês e porquês de um tipo de vida tão diferente, tão exposto, tão sincero como é o daqueles que vivem deste lado de cá.


Apenas três semanas de Índia, ainda que este texto os alcance com alguns dias a mais; no entanto, dias que valem por meses, por vidas, ou, em miúdos, por experiências que podem ser contadas mas jamais divididas: é mundo demais para caber em letras.


Restam, agora, outros destinos, e esperar que todos esses, em algum momento, convirjam com o meu.







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Publicado por Renato Alt

22 de set de 2011

~:: GIG, GOI. ::~

Já se vão três semanas, quase, que cheguei aqui, e peço desculpas pela ausência forçada: internet, quem diria, não está disponível por todo lado e muito menos gratuitamente, o que gera uma inevitável estranheza; afinal, a Índia é um dos grandes exportadores de tecnologia do mundo.


Horas infindáveis entre o Rio de Janeiro e Londres. Deveriam ser 12, mas essas apenas para quem voou em Classe Executiva: nós, lá atrás, tivemos uma viagem muito mais longa, e eu aprisionado na poltrona da janela sequer podia levantar para esticar as costas. Noite adentro (o vôo saíra 22h50), o Boeing cortava o céu em silêncio, quebrado apenas pelo eventual aviso de "apertar cintos" que, claro, permanecia rigorosamente ignorado por todos.

Londres. Mais 4 horas de espera até o vôo para Delhi: muito tempo de aeroporto, muito pouco tempo para tentar ver mais alguma coisa da Terra da Rainha. Imagino ao longe a London Eye e o Tâmisa, como se soubessem que os queria rever, enquanto fico nesse limbo de tempo e nesse território sem pátria.

Delhi. Finalmente, Índia, ainda que, por enquanto, só pelas janelas do avião que pousava; novamente, mais de 4 horas de espera até, enfim, a última conexão. Ainda que a cidade estivesse tão próxima, dessa vez era o receio quem me impedia de sair: só uma cultura tão diferente da nossa é capaz de, realmente, fazer sentir-nos como estrangeiros.


Goa. Uma eternidade depois, vejo-me enfim ao ar livre. E esse ar carregado de uma mistura intensa dos odores de incenso e frutas, de umidade, de calor opressor, acerta-me como um soco. Inocente, ainda dentro do aeroporto, pedira um táxi sem saber que deveria especificar o ar-condicionado. 

Uma horda de taxistas me cerca, como se eu fosse sua última tábua de salvação, disputando aos gritos minha atenção. Mostro o papel do táxi pré-pago, orientação recebida de amigos para evitar ser enrolado, mas isso em nada os detém; uma breve confusão e enfim encontro meu caminho, e meu motorista o nosso, e começamos o breve percurso por esse canto que guarda ainda aqui e ali alguns poucos resquícios dos seus tempos de colônia portuguesa: nomes de ruas, de igrejas, de santos, e pessoas talvez com a idade de própria colônia que falam um dialeto que, com boa vontade, pode-se chamar de português. E quem o fala, fala com orgulho: são os verdadeiros donos do lugar.

Goa, cidade praiana, oferece um vislumbre do que viria adiante, como um estágio para enfrentar a Índia como nós a pensamos. Lugar repleto de turistas, faz diversas concessões no que diz respeito às próprias tradições culinárias, ou religiosas, ou de usos e costumes, ou quaisquer outras. Um belo lugar para quem quer vir a Índia e dizer que veio, sem dúvida; mas não o lugar para quem a quer conhecer de verdade.


Uma semana e um pouco mais para adaptar-me e tentar entender algo do pensamento indiano; tentar e não conseguir entender o que determina o preço das coisas (cortar o chip que comprei para o telefone foi mais caro do que adquirir a linha), e, principalmente, perceber que, aos olhos deles, por mais próximos que nos sejam, seremos sempre o que de fato somos: estrangeiros.


A próxima parada, no entanto, é o choque cultural de que tanto se fala: Mumbai.





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Publicado por Renato Alt

9 de set de 2011

:: ~Intervalo~ ::

Peço licença a vocês, e me esgueiro do meio do palavrório para apresentar uma pergunta.

Estou na Índia, e aqui as experiências e coisas e pessoas e momentos são extraordinários.

Então, aos leitores, pergunto: mantenho o ( aperte o alt ) como o espaço para contos e crônicas de sempre, ou, durante esta minha estadia na Índia - 3 meses - uso o espaço para relatar e dividir com vocês as vivências que este país incrível proporciona?

Deixo a votação em aberto por uma semana.

Namastê.



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Publicado por Renato Alt

6 de set de 2011

:: Panjim ::

O calor do dia torna uma simples caminhada uma tarefa hercúlea: mais do que o sol, a umidade intensa faz encharcar a camisa, o rosto, deixa a respiração pesada e cansativa. Ainda é época de monções, o último mês, e por isso elas, as monções, fazem questão de que suas despedidas sejam intensas. O dia começa com sol a pino, céu azul, e em minutos torna-se negro como a noite. Os indianos, acostumados, simplesmente param em qualquer lugar que ofereça algum tipo de abrigo e ficam ali, com a vida parada, enquanto o céu desaba. Dez ou vinte minutos depois, tudo recomeça: as buzinas incessantes, os riquixás cortando caminho por entre ônibus e caminhões, e o breve frescor que a chuva trouxera já há muito se vai.
Novamente, é dia claro e há pássaros cantando. Entre eles, corvos, muitos. Cães preguiçosos estiram-se pelas calçadas úmidas para aproveitar o calor. Eu, circulando entre aqui e ali, por mais indiano que pareça, sou constantemente interrompido por alguém que me quer vender  um sari, ou chá, ou o que for. É da cultura esse oferecer constante, porém respeitoso.
Mais uma vez o tempo fecha subitamente, mais uma vez cai a chuva torrencial. É preciso habituar-se para programar os dias conforme o vai e vem dos humores de São Pedro. Me perco pelas ruas mais afastadas da pousada onde me hospedei, Panaji Inn, e vou de encontro a casas inteiramente cobertas pelo mato, outras tantas abandonadas, outras tantas convertidas em hotéis e restaurantes.
A noite chega de repente, e é quando, curiosamente, aparecem os outros turistas. Hoje, logo que venha, saio para descobrir o que é que, afinal, encanta gente de toda parte. Porque o que encanta a mim já está mais do que evidente.


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Publicado por Renato Alt