21 de out de 2011

~:: Agra ::~

- Nota: o (aperte o alt) é um blog de contos e crônicas. No entanto os leitores votaram por ler relatos da minha jornada pela Índia enquanto estiver aqui, ou seja, até dezembro. Peço, também por isso, compreensão pela irregularidade nas postagens.-


A cidade me recebe de maneira inesperada. Sendo, talvez, aquela que mais atrai turistas, pensei que encontraria um cenário diferente; mas a matemática para compreender o caos da cidade não é complicada: se há muitos turistas, há muitos querendo tirar proveito disso. Há os que o fazem honestamente, e há os que roubam centavos, inflacionando o preço de coisas simples como a água engarrafada.

Eu fiz a reserva, como de hábito, pela internet. Aprendi a lição em Mumbai: tão importante quanto conferir as fotos do hotel, é conferir onde ele está. Recorri a sites especializados e escolhi, pela reputação que alcançou com outros viajantes, o Rose Home Stay. Um pequeno mimo já conquista minha simpatia: enviaram alguém para me  buscar sem cobrar nada por isso. Quem me espera pacientemente, há mais de uma hora graças à bagunça ferroviária, é Jamael.

Um parêntese sobre a tal bagunça ferroviária: há apenas um trilho na estação Agra Fort. Ou seja, para chegarmos, foi preciso esperar que o trem que lá estava tomasse seu caminho. Descobri, depois, que não estávamos a mais de 10 km do destino final, mas o avançado da noite e o desconhecimento sequer me fizeram pensar na possibilidade de perguntar a alguém e, assim, usar um tuktuk para cobrir essa distância.

Mas ali estava Jamael, homem sorridente, simples: seu sorriso é reflexo da vida dura que leva: seus dentes, todos, estão podres. Sinto imediata empatia por ele, não pena; isso porque ele não deixa a vergonha ficar no caminho da sua conversa, e começa a conversar comigo no instante em que o encontro, com inglês impecável. Pergunto a ele a costumeira pergunta: quantos dias seriam necessários para que eu visse a cidade com a devida atenção, e sou supreendido com um itinerário já todo planejado por ele. Comento que pretendo, dali, seguir para Delhi, e ele responde que arranjaria tudo pra mim. "My duty is to make you happy!"

Rose Home Stay. Acomodações simples, agradáveis. Recebido pelo próprio dono, com extrema simpatia. Conversando com um dos funcionários, ouço o que Jamael também já me havia dito: que é um homem muito bom. Seus funcionários estão com ele há mais de dez anos.

A agenda planejada por Jamael começa cedo: 05h30. É a hora para ver o sol nascer no Taj Mahal, e acompanhar a mudança de cores no mármore branco. Jamael, que não convencia ninguém de que tinha dormido por mais que afirmasse isso, já me esperava. Alguns minutos no tuktuk e paramos. Não vejo o mausoléu. Jamael me instrui sobre o caminho, e sigo um pequeno fluxo de turistas óbvios até uma fila que se desdobra à frente de um detector de metais. Uma revista, e entro.

A área é ampla. Há quatro portões. Minha expectativa é muito alta, o que sempre me deixa apreensivo, temendo alguma frustração. Mas, então, eu passo pelo portão e enfim avisto o monumento.

Silêncio. É como se todas as vozes em minha cabeça se calassem, como se todo o mundo deixasse de existir por um instante e só houvesse aquele lugar, e só existissem as pessoas que ali estavam. Não importa quantas filmagens, fotos ou qualquer outra coisa que se tenha mostrado, nada se compara ao que se impunha absoluto diante dos meus olhos. Jamael me dera duas horas ali dentro, tempo que pensei que seria muito; no entanto, já se haviam passado mais de dez minutos e eu ainda nem dera meu primeiro passo.

Recupero o fôlego e começo a caminhar. O Taj começa a se agigantar de maneira impossível, e há tanto para olhar que meus olhos se perdem. Tiro os sapatos e, enfim, piso o mármore branco. A beleza é quase insuportável. Obra de artistas persas, cada metro é uma obra-prima. Sento-me, mudo, no pátio exterior e deixo-me simplesmente sentir o lugar, e, como em Ellora e Ajanta, ouvir o que ele me diz.

Ao meu lado, vejo um homem ajoelhar-se diante de uma mulher. Ele, de algum país de língua inglesa; ela, chineza.

Ali, à sombra do Taj, ele a pede em casamento. Invejo a capacidade que tiveram de arrancar do monumento uma beleza só para eles, de torná-lo testemunha e parte de sua própria história. E penso que, nesse exato instante, dois momentos tão distantes do ciclo da vida se encontraram: o final dela, representado pelo Taj, e também seu início. Sorrio, sozinho.

Deixo o lugar. As duas horas voaram. Encontro-me com Jamael para o café da manhã. Ele me leva a um restaurante com vista de tirar o fôlego, e quase esqueço a fome.

Conversamos. E conforme a confiança mútua cresce, encaixo perguntas delicadas sobre o modo de vida indiano. Descubro que ainda hoje 60% dos casamentos são arranjados, que os casais não querem ter filhas mas precisam gerar filhos de imediato, o que os leva a gerar muitos deles para ter mais meninos. Descubro que, paradoxalmente, a lei favorece as mulheres: basta que uma vá à polícia e denuncie quantos homens quiser para que eles sejam todos presos sem mais perguntas.

Seguimos para outros monumentos. Mais algumas fotos. Nada que se compare à beleza do Taj.

No dia seguinte, sigo com outro motorista e com um homem cuja função até agora desconheço, esse um tanto desagradável. São 40 km até Fatehpur Sikri.

A imponência do lugar é impressionante. A arquitetura, o pequeno santuário em mármore branco destacando-se em meio às pedras vermelhas da construção. Os religiosos vendendo artigos. No santuários, dezenas de pessoas acotovelam-se para amarrar uma cordinha vermelha, que eu também recebera, na tela esculpida em mármore que separa o aposento interno: crêem que os pedidos feitos ali, limitados a três, se concretizarão. Também depositam belíssimas pashminas que são, em seguida, cobertas por flores. Um homem as vende no lado de fora, e me é dito que toda a renda é revertida para ajudar os necessitados. Compro a pashmina, e é aqui que recebo minha cordinha vermelha; mas o faço pela questão da caridade. Como cristão, não tomo parte nos rituais que citei acima. Entrego o que comprei para o guia que me acompanha.

Voltamos para o hotel, e sou obrigado a ser rude com o tal homem sem função, que insiste à exaustão que eu visite bazares e mais bazares - claro, ele ganha comissão.

Jamael manda uma mensagem dizendo que já tinha meu bilhete para o trem. Espero algumas horas no saguão até que ele venha me buscar e levar à estação. Faço questão de dar-lhe algum dinheiro, pelo qual ele me agradece como seu eu tivesse salvado-lhe a vida.

Agora, o trem e o cansaço me levariam à Delhi.

 

 
















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Publicado por Renato Alt

10 de out de 2011

~:: Jaipur ::~

- Nota: o (aperte o alt) é um blog de contos e crônicas. No entanto os leitores votaram por ler relatos da minha jornada pela Índia enquanto aqui estiver, ou seja, dezembro. -

O táxi enviado para mim não é nada barato: 300 rupias. Tudo bem, isso equivale a dez reais, mas é preciso aprender a pensar em moeda local, ou qualquer gasto pode ser muito maior do que o necessário. O motorista traz consigo seu filho, e ambos passam todo o tempo conversando entre si. Volta e meia, me fazem uma pergunta, ignoram minha resposta e qualquer tentativa que eu faça de falar: riem. O garoto olha pra mim, olha de volta para o pai, falam alguma coisa, riem. Não consigo evitar a irritação.

Chego à Guest House: preço muito melhor do que o dos hotéis da região, afinal, é uma extensão da casa que é oferecida àqueles que, como eu, chegam sem porto à uma cidade. Quem me recebe é um ancião que, faz questão de dizer, está prestes a completar 80 anos, e me pede sem qualquer reserva todo o montante que preciso pagar pela minha estadia; até então, a mais longa em uma cidade na Índia: 9 noites. Ele, o dono da pousada, é daqueles que gostam de falar sobre as verdades da vida, e a qualquer momento se coloca a discursar sobre seu ponto de vista. Ouço sem me entediar; afinal, é a visão de alguém que viveu toda a vida em um ambiente completamente diferente do ocidental; alguém que vive um casamento arranjado, mas, declara, feliz. Alguém que observa as mudanças no mundo, e que lamenta não ter mais uns tantos anos de vida para ver o resultado do que andam fazendo.


Fui para meu quarto e percebi, lentamente, o funcionamento das coisas: os empregados fazem tudo, da comida à construção de novos aposentos. Um deles, mentalmente debilitado, me conduz aos berros ao meu quarto, e o invade ferozmente a cada nova notícia que é incubido a me dar. Não me aborreço: é retrato da grande pessoa que é o dono deste lugar, que, mais do que hospedar, faz questão de que cada um sinta-se em casa.


Palácio do Vento
Saio, depois de dias, para conhecer os pontos turísticos da cidade. E não são poucos: fortes, castelos, artefatos criados com maestria por artesãos que nunca estão plenamente satisfeitos com o que produzem. São dois dias revisitando os lugares históricos, sob a orientação de um professor de história, e é tanta a riqueza do lugar que torna-se difícil escrever a respeito. Vejo que os indianos, maioria absoluta em todo lugar turístico, sabem valorizar sua história, coisa que temos a aprender com eles.


Jóias. Pashminas. Pinturas. Braceletes. Tudo é feito com precisão, com cuidado, com uma beleza ímpar: a mesma beleza que se mostra impregnada em cada construção. A "Cidade Rosa", como é chamada, foi pintada com essa cor a fim de receber um nobre cuja flor preferida era essa. E a cidade é vaidosa. Não apresenta qualquer timidez diante dos visitantes: estes que se rendam a ela ou então que se contentem com uma visita superficial. Ela se revela aos poucos, para quem lhe dá seu tempo. Eu, como de costume, atiro-me de cabeça, a fim de descobrir tesouros que em geral passam despercebidos por aqueles que caminham aqui com passos apressados.


A beleza e imponência dos fortes, canhões e santuários me rouba as palavras. A história descrita com paixão por aquele que me guia me arrebata de tal forma que sinto-me como se estivesse vivendo naqueles idos tempos, quando todo o lugar fervilhava de pessoas, de histórias, de vida.


Jaipur, até então, foi o lugar que mais me deteve. Causa surpresa naqueles que ouvem que fiquei tantos dias. Mas sei que foi o tempo que a cidade tomou para apresentar-se a mim.


A próxima parada é aquela que todos que vêm à Índia procuram: Agra. Adormeço no trem que me levará até lá, tendo nos sonhos as imagens do Taj Mahal e de noites sem fim.



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Publicado por Renato Alt

6 de out de 2011

~:: Aurangabad ::~

- Nota: o (aperte o alt) é um blog de contos e crônicas. No entanto os leitores votaram por ler relatos da minha jornada pela Índia enquanto aqui estiver, ou seja, dezembro. -

O motorista enviado pelo hotel demora. Quando chega, vestido inteiramente de branco, com uma barba imensa, custo a acreditar que era ele: não falava mais do que três palavras em inglês, mas sorria um sorriso imediatamente sincero.


Seu nome é Samir Khan. Foi ele quem, depois, me fez saber, pedindo a um amigo que me dissesse, a respeito do quanto estava sendo enganado no hotel, e ainda que fosse empregado deste, mostrou-se talvez mais revoltado do que eu; em especial pelo que cobraram para me levar para conhecer as duas grandes atrações do lugar, Ellora e Ajanta, sendo justamente aí que ele, Samir, ganharia algum dinheiro a mais.


Disse para Samir para deixar isso para lá, e seguimos adiante: um tremendo esforço para nos fazermos entende. Ele pergunta sobre o Brasil. Cita, claro, Kaká e Ronaldinho. Mostra, orgulhoso, fotos que tirou com turistas que levou pra cá e pra lá, e em especial um caderno muito simples: ele entrega-o para mim e bate com o dedo: "Read! Read!" Eu leio: são pequenos depoimentos que ele colheu desses turistas, e que guarda como tesouro. Todos, sem exceção, encantados com o sujeito de poucas palavras e enormes sorrisos.

Todo o aborrecimento com hotel ou qualquer outra coisa foi esquecido quando chegamos ao primeiro dos dois Patrimônios da Humanidade. Ellora exibe-se orgulhosa, esculpida na rocha, com seus 34 templos cercados pelo penhasco e adornados por uma cascata que parece estar ali só para garantir que as palavras fujam e a serenidade do lugar siga inabalada. É uma visão poderosa, impossível, que evoca um tempo tão remoto quanto a memória. Não parece real. Não parece humano. Esqueço da hora, esqueço de mim, esqueço do pobre e paciente Samir, que já conhece o lugar melhor do que a si mesmo, e perco-me em meio a estátuas, e painéis, e adornos e morcegos e silêncio, tão poderoso silêncio, que produzir qualquer som, mesmo sem querer, parece capaz de acordar alguma daquelas milhares de imagens de pedra.


Saio do lugar em um silêncio reverente.


Deixando as cavernas, há outras coisas para ver durante o dia: o Megharat Fort, o Mini Taj Mahal, alguns templos; mas depois de Ellora, é impossível evitar um bocejo em todo o resto. Anseio pela volta ao hotel. Foram horas de caminhada. Tenho pra mim que já estava dormindo antes mesmo de me deitar.


Amanhece.


Encontro Samir, que me avisa que seriam duas horas e meia de viagem de carro até Ajanta, e que esse seria o único lugar a visitar no dia. A perspectiva de todo esse tempo dentro daquele carro, naquelas estradas em péssimas condições e em meio a motoristas insanos, quase me fazem dispensar o passeio. Mas minha vontade de conhecer tudo quanto é possível conhecer me faz entrar no carro, e começamos a viajar logo depois de Samir virar-se pra mim e perguntar: "me good driver?"


Enfim chegamos. Um amigo de Samir, que entrara no carro alguns minutos antes, diz que vai levar-me até a entrada das Cavernas. Ok.


Caminhamos sobre uma colina, uma cachoeira ruidosa castiga as pedras de um rio muito, muito abaixo. Vejo à frente alguns bancos em uma estrutura que parece um coreto. Ali estão, contando comigo, quatro pessoas: um japonês, um francês, um idiano e eu, um brasileiro; pensei comigo que parecia o início de uma piada. 

Pouco adiante, uma cerca contorna o desfiladeiro. Caminho até ela meio sonolento, meio descrente, meio, talvez, arrogante. Afinal, já tinha visto Ellora. O que mais poderiam querer me mostrar?


A resposta veio como se soubesse o que eu pensava. Veio para colocar-me em meu devido lugar.


E colocou.


Dispostas em um arco, com a tal cachoeira fazendo as vezes de trilha sonora, as Cavernas de Ajanta exibem-se majestosas. Magníficas. Ainda mais antigas que as de Elllora, contam milhares de anos. Imediatamente penso naquele lugar em seus dias de glória, quando fervilhava de pessoas e de fiéis, antes de serem deixadas para descansar e para que aqueles que, como eu, quisessem ter um vislumbre do quanto a humanidade é capaz do belo, quando permite a si mesmo o tempo a paciência e a dedicação para tal. Além de estátuas, painéis e tanto mais, Ajanta guarda ainda as cores que apresentou a uma infinidade de pessoas, em representações de guerras e deuses, pintados com tinta extraída de frutas, de raízes, de plantas; cores que não somem.


Rendo-me ao lugar, e deixo que ele mesmo se apresente a  mim. Deixo que me diga o que quiser dizer. Me limito a ouvir, e o que ouço é silêncio: ele diz tudo.

Samir sabe o que se passa comigo. Já vira essa reação tantas outras vezes. Sorri. Pede pra tirar uma foto comigo. Pede pra que eu pose ao lado do carro dele. Pede que escreva, em português, no seu caderno. Eu escrevo, depois leio o que escrevi. Sua expressão muda um pouco: o sorriso está lá, mas agora não só o sorriso. Pergunto se está tudo bem, ele diz que sim. Alguns minutos depois, volta ao seu estado normal, rindo e tentando me dizer o que são as coisas que estou vendo pela janela.


De volta ao hotel. Eu descobrira, através do amigo do Samir, que ele ganharia uma quantia irrisória por todo o trabalho que teve comigo, por esses dois dias conduzindo pra mim. Sem saber que seria ele a me levar ao aeroporto no dia seguinte, retiro uma boa quantia da minha carteira e entrego a ele. Tenho que insistir pra que aceite.

Agora, no quarto, preciso ficar sozinho e tentar absorver tudo o que vi. Lembro-me de Diego, do conto de Eduardo Galeano, que não conhecia o mar e, ao enfim avistá-lo, fora tomado de tanta maravilha que pediu ao pai: "me ajuda a olhar!"


Manhã seguinte, hora de seguir para o aeroporto, depois de, mais uma vez, ser forçado a pagar taxas que ninguém me dissera que teria que pagar. Cansado demais pra discutir. Eles furtam-me tostões, o que alimenta sua própria miséria. Pago com um misto de raiva e pena.


Chega Samir para me levar ao aeroporto. Dessa vez, ele está em silêncio. São poucos minutos até o terminal. Estacionamos e mal chegamos lá, Samir subitamente estende sua mão esquerda para o porta-luvas à minha frente e entrega-me um embrulho de jornal todo amarrado com barbante.


Olho pra ele que, claro, sorri, e aponta para o embrulho e depois pra mim. Abro, e dentro está um pequeno elefante de pedra. Fico sem palavras, e só consigo dizer obrigado. "You, my friend!", diz ele, com os olhos marejados. Ele sai para abrir a porta pra mim e, antes que eu pudesse dizer qualquer outra coisa, vira as costas e vai embora.


Fico uns instantes olhando para o artefato em minha mão, até ser chamado de volta à realidade por algum anúncio feito dentro do terminal.



Parto para novo check-in, com a certeza confirmada de que pessoas, sempre, podem ser muito mais surpreendentes do que qualquer lugar.

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Publicado por Renato Alt