6 de out de 2011

~:: Aurangabad ::~

- Nota: o (aperte o alt) é um blog de contos e crônicas. No entanto os leitores votaram por ler relatos da minha jornada pela Índia enquanto aqui estiver, ou seja, dezembro. -

O motorista enviado pelo hotel demora. Quando chega, vestido inteiramente de branco, com uma barba imensa, custo a acreditar que era ele: não falava mais do que três palavras em inglês, mas sorria um sorriso imediatamente sincero.


Seu nome é Samir Khan. Foi ele quem, depois, me fez saber, pedindo a um amigo que me dissesse, a respeito do quanto estava sendo enganado no hotel, e ainda que fosse empregado deste, mostrou-se talvez mais revoltado do que eu; em especial pelo que cobraram para me levar para conhecer as duas grandes atrações do lugar, Ellora e Ajanta, sendo justamente aí que ele, Samir, ganharia algum dinheiro a mais.


Disse para Samir para deixar isso para lá, e seguimos adiante: um tremendo esforço para nos fazermos entende. Ele pergunta sobre o Brasil. Cita, claro, Kaká e Ronaldinho. Mostra, orgulhoso, fotos que tirou com turistas que levou pra cá e pra lá, e em especial um caderno muito simples: ele entrega-o para mim e bate com o dedo: "Read! Read!" Eu leio: são pequenos depoimentos que ele colheu desses turistas, e que guarda como tesouro. Todos, sem exceção, encantados com o sujeito de poucas palavras e enormes sorrisos.

Todo o aborrecimento com hotel ou qualquer outra coisa foi esquecido quando chegamos ao primeiro dos dois Patrimônios da Humanidade. Ellora exibe-se orgulhosa, esculpida na rocha, com seus 34 templos cercados pelo penhasco e adornados por uma cascata que parece estar ali só para garantir que as palavras fujam e a serenidade do lugar siga inabalada. É uma visão poderosa, impossível, que evoca um tempo tão remoto quanto a memória. Não parece real. Não parece humano. Esqueço da hora, esqueço de mim, esqueço do pobre e paciente Samir, que já conhece o lugar melhor do que a si mesmo, e perco-me em meio a estátuas, e painéis, e adornos e morcegos e silêncio, tão poderoso silêncio, que produzir qualquer som, mesmo sem querer, parece capaz de acordar alguma daquelas milhares de imagens de pedra.


Saio do lugar em um silêncio reverente.


Deixando as cavernas, há outras coisas para ver durante o dia: o Megharat Fort, o Mini Taj Mahal, alguns templos; mas depois de Ellora, é impossível evitar um bocejo em todo o resto. Anseio pela volta ao hotel. Foram horas de caminhada. Tenho pra mim que já estava dormindo antes mesmo de me deitar.


Amanhece.


Encontro Samir, que me avisa que seriam duas horas e meia de viagem de carro até Ajanta, e que esse seria o único lugar a visitar no dia. A perspectiva de todo esse tempo dentro daquele carro, naquelas estradas em péssimas condições e em meio a motoristas insanos, quase me fazem dispensar o passeio. Mas minha vontade de conhecer tudo quanto é possível conhecer me faz entrar no carro, e começamos a viajar logo depois de Samir virar-se pra mim e perguntar: "me good driver?"


Enfim chegamos. Um amigo de Samir, que entrara no carro alguns minutos antes, diz que vai levar-me até a entrada das Cavernas. Ok.


Caminhamos sobre uma colina, uma cachoeira ruidosa castiga as pedras de um rio muito, muito abaixo. Vejo à frente alguns bancos em uma estrutura que parece um coreto. Ali estão, contando comigo, quatro pessoas: um japonês, um francês, um idiano e eu, um brasileiro; pensei comigo que parecia o início de uma piada. 

Pouco adiante, uma cerca contorna o desfiladeiro. Caminho até ela meio sonolento, meio descrente, meio, talvez, arrogante. Afinal, já tinha visto Ellora. O que mais poderiam querer me mostrar?


A resposta veio como se soubesse o que eu pensava. Veio para colocar-me em meu devido lugar.


E colocou.


Dispostas em um arco, com a tal cachoeira fazendo as vezes de trilha sonora, as Cavernas de Ajanta exibem-se majestosas. Magníficas. Ainda mais antigas que as de Elllora, contam milhares de anos. Imediatamente penso naquele lugar em seus dias de glória, quando fervilhava de pessoas e de fiéis, antes de serem deixadas para descansar e para que aqueles que, como eu, quisessem ter um vislumbre do quanto a humanidade é capaz do belo, quando permite a si mesmo o tempo a paciência e a dedicação para tal. Além de estátuas, painéis e tanto mais, Ajanta guarda ainda as cores que apresentou a uma infinidade de pessoas, em representações de guerras e deuses, pintados com tinta extraída de frutas, de raízes, de plantas; cores que não somem.


Rendo-me ao lugar, e deixo que ele mesmo se apresente a  mim. Deixo que me diga o que quiser dizer. Me limito a ouvir, e o que ouço é silêncio: ele diz tudo.

Samir sabe o que se passa comigo. Já vira essa reação tantas outras vezes. Sorri. Pede pra tirar uma foto comigo. Pede pra que eu pose ao lado do carro dele. Pede que escreva, em português, no seu caderno. Eu escrevo, depois leio o que escrevi. Sua expressão muda um pouco: o sorriso está lá, mas agora não só o sorriso. Pergunto se está tudo bem, ele diz que sim. Alguns minutos depois, volta ao seu estado normal, rindo e tentando me dizer o que são as coisas que estou vendo pela janela.


De volta ao hotel. Eu descobrira, através do amigo do Samir, que ele ganharia uma quantia irrisória por todo o trabalho que teve comigo, por esses dois dias conduzindo pra mim. Sem saber que seria ele a me levar ao aeroporto no dia seguinte, retiro uma boa quantia da minha carteira e entrego a ele. Tenho que insistir pra que aceite.

Agora, no quarto, preciso ficar sozinho e tentar absorver tudo o que vi. Lembro-me de Diego, do conto de Eduardo Galeano, que não conhecia o mar e, ao enfim avistá-lo, fora tomado de tanta maravilha que pediu ao pai: "me ajuda a olhar!"


Manhã seguinte, hora de seguir para o aeroporto, depois de, mais uma vez, ser forçado a pagar taxas que ninguém me dissera que teria que pagar. Cansado demais pra discutir. Eles furtam-me tostões, o que alimenta sua própria miséria. Pago com um misto de raiva e pena.


Chega Samir para me levar ao aeroporto. Dessa vez, ele está em silêncio. São poucos minutos até o terminal. Estacionamos e mal chegamos lá, Samir subitamente estende sua mão esquerda para o porta-luvas à minha frente e entrega-me um embrulho de jornal todo amarrado com barbante.


Olho pra ele que, claro, sorri, e aponta para o embrulho e depois pra mim. Abro, e dentro está um pequeno elefante de pedra. Fico sem palavras, e só consigo dizer obrigado. "You, my friend!", diz ele, com os olhos marejados. Ele sai para abrir a porta pra mim e, antes que eu pudesse dizer qualquer outra coisa, vira as costas e vai embora.


Fico uns instantes olhando para o artefato em minha mão, até ser chamado de volta à realidade por algum anúncio feito dentro do terminal.



Parto para novo check-in, com a certeza confirmada de que pessoas, sempre, podem ser muito mais surpreendentes do que qualquer lugar.

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Publicado por Renato Alt

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