10 de out de 2011

~:: Jaipur ::~

- Nota: o (aperte o alt) é um blog de contos e crônicas. No entanto os leitores votaram por ler relatos da minha jornada pela Índia enquanto aqui estiver, ou seja, dezembro. -

O táxi enviado para mim não é nada barato: 300 rupias. Tudo bem, isso equivale a dez reais, mas é preciso aprender a pensar em moeda local, ou qualquer gasto pode ser muito maior do que o necessário. O motorista traz consigo seu filho, e ambos passam todo o tempo conversando entre si. Volta e meia, me fazem uma pergunta, ignoram minha resposta e qualquer tentativa que eu faça de falar: riem. O garoto olha pra mim, olha de volta para o pai, falam alguma coisa, riem. Não consigo evitar a irritação.

Chego à Guest House: preço muito melhor do que o dos hotéis da região, afinal, é uma extensão da casa que é oferecida àqueles que, como eu, chegam sem porto à uma cidade. Quem me recebe é um ancião que, faz questão de dizer, está prestes a completar 80 anos, e me pede sem qualquer reserva todo o montante que preciso pagar pela minha estadia; até então, a mais longa em uma cidade na Índia: 9 noites. Ele, o dono da pousada, é daqueles que gostam de falar sobre as verdades da vida, e a qualquer momento se coloca a discursar sobre seu ponto de vista. Ouço sem me entediar; afinal, é a visão de alguém que viveu toda a vida em um ambiente completamente diferente do ocidental; alguém que vive um casamento arranjado, mas, declara, feliz. Alguém que observa as mudanças no mundo, e que lamenta não ter mais uns tantos anos de vida para ver o resultado do que andam fazendo.


Fui para meu quarto e percebi, lentamente, o funcionamento das coisas: os empregados fazem tudo, da comida à construção de novos aposentos. Um deles, mentalmente debilitado, me conduz aos berros ao meu quarto, e o invade ferozmente a cada nova notícia que é incubido a me dar. Não me aborreço: é retrato da grande pessoa que é o dono deste lugar, que, mais do que hospedar, faz questão de que cada um sinta-se em casa.


Palácio do Vento
Saio, depois de dias, para conhecer os pontos turísticos da cidade. E não são poucos: fortes, castelos, artefatos criados com maestria por artesãos que nunca estão plenamente satisfeitos com o que produzem. São dois dias revisitando os lugares históricos, sob a orientação de um professor de história, e é tanta a riqueza do lugar que torna-se difícil escrever a respeito. Vejo que os indianos, maioria absoluta em todo lugar turístico, sabem valorizar sua história, coisa que temos a aprender com eles.


Jóias. Pashminas. Pinturas. Braceletes. Tudo é feito com precisão, com cuidado, com uma beleza ímpar: a mesma beleza que se mostra impregnada em cada construção. A "Cidade Rosa", como é chamada, foi pintada com essa cor a fim de receber um nobre cuja flor preferida era essa. E a cidade é vaidosa. Não apresenta qualquer timidez diante dos visitantes: estes que se rendam a ela ou então que se contentem com uma visita superficial. Ela se revela aos poucos, para quem lhe dá seu tempo. Eu, como de costume, atiro-me de cabeça, a fim de descobrir tesouros que em geral passam despercebidos por aqueles que caminham aqui com passos apressados.


A beleza e imponência dos fortes, canhões e santuários me rouba as palavras. A história descrita com paixão por aquele que me guia me arrebata de tal forma que sinto-me como se estivesse vivendo naqueles idos tempos, quando todo o lugar fervilhava de pessoas, de histórias, de vida.


Jaipur, até então, foi o lugar que mais me deteve. Causa surpresa naqueles que ouvem que fiquei tantos dias. Mas sei que foi o tempo que a cidade tomou para apresentar-se a mim.


A próxima parada é aquela que todos que vêm à Índia procuram: Agra. Adormeço no trem que me levará até lá, tendo nos sonhos as imagens do Taj Mahal e de noites sem fim.



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Publicado por Renato Alt

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