4 de nov de 2011

~ :: Deli :: ~

- Nota: o (aperte o alt) é um blog de contos e crônicas. No entanto os leitores votaram por ler relatos da minha jornada pela Índia enquanto estiver aqui, ou seja, até dezembro. Peço, também por isso, compreensão pela irregularidade nas postagens.-

A experiência em Mumbai me traumatizara mais do que eu pensava. Percebo que minha ansiedade para chegar à capital indiana não era tanta quanto se deveria esperar. O que servia como algum conforto era o panfleto que eu tinha em mãos, onde um hotel convidativo me esperava: Arihanta Inn. 


A confusão na saída era a já esperada, mas não menos irritante. E à medida em que o tempo passa, a paciência para o assédios dos taxistas e motoristas de riquixá torna-se cada vez menor. O caos foi suficiente para que eu esquecesse meu fiel companheiro de viagem, meu livro sobre a Índia, sobre o banco do primeiro tuktuk no qual entrei, mas que decidira por não levar-me. É tarde demais quando me dou conta, e resta reclamar do acontecido e seguir adiante. O motorista me diz que iria recuperar meu livro, mas não o levo a sério.


Começamos a percorrer, eu, motorista e tuktuk, a tumultuada noite da capital: é feriado, como parece acontecer a todo momento, por isso as ruas estão tomadas por músicas, fogos de artifício e fumaça de incenso.


Subitamente, paramos. O motorista simplesmente me diz "um minuto" e desaparece. Estou sob um viaduto, praticamente sem iluminação alguma, e como num passe de mágica todas as pessoas parecem desaparecer. Vinte minutos depois, volta o motorista: pergunto o que está acontecendo, e ele me diz que estamos esperando pelo meu livro. Penso não ter entendido bem, mas para minha imensa surpresa, logo em seguida um carro para ao nosso lado e eis que o carona estende para mim o meu guia. Agradeço, incrédulo.


Fotos enganadoras sobre o quarto, claro. Simpatia demais do camareiro: desconfio. Mas não há o que fazer agora, a não ser pedir por um city tour no dia seguinte.


Dia seguinte. Um casal do norte europeu está de saída no hall, enquanto eu espero meu carro para ver a cidade. Pergunto sobre a impressão deles sobre a Índia e sobre Deli. Ela me diz para sair de lá o quanto antes - "meia-hora aqui é suficiente" e ir, também o quanto antes, para Kerala. Um carro estaciona para eles, mas o recusam: o motorista não falava inglês. Vou eu então nele, conhecer os monumentos locais. O homem, de perto de quarenta, afinal falava algum inglês, e compensava a falta de fluidez com uma enorme disposição para transitar por todo canto. Me leva ao Memorial Indira Gandhi. Aos Ministérios. Ao Portão da Índia. Tenta fazer as vezes de guia turístico, ainda que limitado a me dizer o nome dos lugares. Eu, a cada elogio que faço à qualquer lugar, vejo um orgulho patriótico surgir na forma de sorriso em seu rosto.


Deli equilibrou-se entre o que eu esperava e entre o que eu passei a temer encontrar. É a cidade cosmopolita como não poderia deixar de ser, mas que reserva sua identidade indiana, ainda que tão esquizofrênica: entre a vontade de reafirmar suas origens e a impressão que tem de que precisa do idioma inglês para colocar-se no mundo.


O próximo destino se apresenta para mim como algo saído de um filme: uma cidade onde há um templo feito de ouro, no meio de um lago de água limpa, cercado por muralhas de mármore branco: Amritsar, a cidade sagrada dos sikhs.











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Publicado por Renato Alt

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