21 de nov de 2011

~:: Varanasi::~

- Nota: o (aperte o alt) é um blog de contos e crônicas. No entanto os leitores votaram por ler relatos da minha jornada pela Índia enquanto estiver aqui, ou seja, até dezembro. Peço, também por isso, compreensão pela irregularidade nas postagens.-


Varanasi é mais velha do que o tempo, já dissera Mark Twain.

Foram 21 horas de trem, saindo de Amritsar. Na cabine, dividi histórias com passageiros que vieram e foram, completando trajetos menores do que o meu: fui o único a percorrer todo o caminho.


E a cidade, talvez a que eu mais ansiava conhecer, recepciona-me mostrando como são suas tardes: quentes, secas, agitadas. Varanasi é a cidade mais antiga do mundo, contemporânea das bíblicas Nínive e Babilônia, e os primeiros minutos do lado de fora da estação comprovam isso. Como em nenhum outro dos lugares que visitei, este é um caldeirão onde circulam todo tipo de fé, todo tipo de gente, todo tipo de realidade: um coração que bate incessante há milhares de anos, inspirando vida e exalando, com a mesma naturalidade, a morte; sagrada para os hinduístas, consideram bênção morrer na cidade: cremados seus corpos e jogadas suas cinzas no Ganges, crêem serem libertos do ciclo de morte e renascimento.

As ruas transbordam de pessoas e animais: na parte mais antiga de Varanasi, compõem um emaranhado que estende-se como a teia de uma aranha, formando um labirinto impossível de vencer sozinho. E quanto mais enredado, quanto mais absorvido o visitante se permite estar, mais irreais parecem os cenários, mais distantes parecem as pessoas, mais indecifráveis são os rostos.

Fumaça de incenso mistura-se à comida preparada a portas abertas em minúsculas cozinhas. Casas de um só cômodo acotovelam-se à margem do rio sagrado. No trânsito, cortejos fúnebres, onde os que partiram são carregados nos ombros por homens, são tão comuns quanto riquixás, quanto ônibus, quanto o gado.


Rituais acontecem a todo canto, a todo momento, para a infindável miríade de deuses que confundem-se com tudo o que existe ao alcance da vista. Varanasi é uma cidade-religião, um microcosmo que, sem ela, se desmantelaria.


Sou apresentado aos lugares turísticos. Aos lugares curiosos. Mas não há nada que se compare ao que é a cidade em si, nada que se compare a ver o ir e vir das pessoas, em seus casos e coisas, em suas cores e em sua pressa, como se o caos que assusta os olhos ocidentais simplesmente não existisse; e convenhamos: somente quem mora nesse incrível turbilhão pode e tem o direito de dizer o que é caos e o que é calmaria.





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Publicado por Renato Alt

7 comentários:

Fellippe disse...

E essa viagem toda é sem guias? E esse tempo todo de viagem é algo possível nos dias de hoje? Admiro seu itinerário.

Visionics disse...

Renato, ao te seguir no twitter e ver as fotos postadas, posso dizer que aprendi coisas sobre a India que jamais encontraria em livros ou documentários. Essa cidade (Varanasi) é espantosa para nós pela sua efervecencia material e espiritual. Acho que ela resume a India. Parabéns pelo trabalho.

( aperte o alt ) disse...

Fellipe,

a viagem foi sim, na maioria, sem guias. Fora os locais, para apresentar os lugares históricos, mas viajei sozinho. E era como queria viajar mesmo... Por todo esse tempo (é possível!) e por conta própria. Recomendo demais.

______________

Visionics,

você não calcula a satisfação que seu comentário me trouxe. A Índia é já um país tão falado, tão exaustivamente explorado pela midia (até novelas!) que me perguntava se seria possível trazer algum ar de novidade pra este lugar. Esse era um dos meus objetivos, que você afirmou alcançado. Obrigado!

Regina disse...

Alt: parabéns pela premiação TopBlog.Abraço.

( aperte o alt ) disse...

Obrigado, Regina. Soube através de você! Parabéns também!

Lala Guedes disse...

Aii que inveja, quero ir em todos esses lugares!! :)

Aninha disse...

É verdade, a Índia é muito mais que guias, documentário e novelas... E acho que só descobrimos isso quando chegamos lá. Ainda vou voltar para aproveitar o que não aproveitei. Parabéns!