18 de dez de 2011

[EXTRA] - Prêmio TopBlog 2011

ATENÇÃO: estou fazendo várias mudanças no blog. Por isso está esta bagunça, ok? ESTAMOS TRABALHANDO PARA MELHOR SERVI-LOS. ;-)


Desta vez peço licença a todos vocês que estão sempre por estas paragens (e aproveitando a deixa para dar as boas-vindas aos que chegam agora) para agradecer àqueles que votaram, àqueles que torceram e àqueles que, por fim, elegeram:


O Aperte o Alt é o vencedor do TopBlog 2011, na categoria "Literatura".


Só quem dedica tempo e cuidado para manter um espaço, um blog, e sabe o quanto pode ser difícil expor pensamentos sem saber ao certo o que virá de volta - afinal, a palavra proferida é das três coisas que não voltam atrás - pode compreender o grande incentivo que é conquistar um prêmio como esse.


Obrigado aos jurados.
Obrigado à toda organização do TopBlog.
Obrigado a quem lê o Aperte e, mais ainda, a quem cobra de mim que o mantenha atualizado.


A conquista é nossa.


E que venha o TopBlog 2012. De preferência, antes do fim do mundo.


Pra comemorar, estou fazendo várias mudanças no Blog. Por isso, não estranhem se o comportamento estiver um pouco diferente.


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Publicado por Renato Alt

11 de dez de 2011

~ :: Calcutá :: ~

A índia é um tema inesgotável. No entanto, antes que canse, prefiro parar. Este vai ser, ao menos por enquanto, o último texto a respeito da viagem. 


Não queria ficar em Calcutá. Me sentia mais na obrigação de ir à cidade, já que afinal de contas estava na Índia, do que empolgação: as outras cidades mais conhecidas - Varanasi, Delhi e Mumbai - eram um caldeirão tão caótico que temia encontrar o mesmo na cidade que a célebre albanesa abraçou com paixão.


Pretendia ficar dois dias, três: o suficiente para ver o que havia para ser visto, filmar o que houvesse a ser filmado, e então colocar novamente o pé na estrada: estava ansioso por conhecer Kerala, lugar que todos que encontrei, todos, disseram ser maravilhoso.


Eu não queria me enfiar campo adentro rumo a uma aldeia, onde a luz faltava a cada cinco minutos, não queria encontrar crianças - nunca tive jeito com elas. Não queria ficar de improviso em uma casa: mais de dois meses sem parar de viajar me pediam alguma calmaria.


Não queria nada daquilo. Não foi pra isso que viajei.
Mas não tive escolha.


Cheguei à Dakshin Barasat no final da tarde. Da estreita passagem que dá acesso à escola Maranatha, saíam, em seus uniformes azuis, crianças apressadas, satisfeitas, depois de um dia que começara ainda antes das 7 da manhã.


Sou apresentado ao que é a escola. Ao que acontece ali. Ao que acontecia a algumas daquelas crianças. Ao que poderia acontecer a elas se não estivessem ali.


Não tive escolha.


Todo o tempo em que trabalhei em agências de propaganda parecia, agora, convergir para um único ponto: Harvest Today Mission, a missão que transforma uma realidade cruel, mas ainda tão tímida diante de tantas outras ONGS.


Não tive escolha. Mas agora, escolheria de qualquer forma. Agora, a propaganda, a comunicação, fazem sentido.


As crianças fazem sentido.


Não vi em dois ou três dias o que Calcutá tinha pra mostrar. Pouco vi Calcutá. E os três dias transformaram-se em três semanas, e Kerala permaneceu lá, esperando por mim, e nunca cheguei.


Não lamento. Sou grato. Quisera ter mais tempo para estar lá.
A passagem, no entanto, era imperativa: não me permitia ficar um dia a mais.


Volto com a certeza do que fazer, e com a vaga idéia da dimensão de tudo isso.


E Calcutá tornou-se todo o objetivo da viagem, já o era antes que eu soubesse.


Não tive escolha. Me rendi, satisfeito.






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Publicado por Renato Alt

3 de dez de 2011

~:: Nepal: Katmandu ::~

Foi como se eu não tivesse escolha.

Enquanto jantava no terraço da guest house em Varanasi, um cartaz que esteve sempre ali dessa vez conseguiu fazer-se notar, como se fosse alguém sacudindo os braços: anunciava que vendiam, ali mesmo, passagens de ônibus para o Nepal.



Era daqueles destinos que sempre quisera ir. Perguntei sobre o valor e, sem pensar muito, marquei a passagem. Iríamos até a fronteira, passaríamos a noite em um hotel já incluído no valor do bilhete e, na manhã seguinte, seguiríamos até Katmandu.


O ônibus não tinha espaço para o tanto de pessoas que gostaria de crer conseguir carregar. Com as pernas viradas para o lado, sentia a circulação esforçando-se para chegar aos pés, mas poucos minutos depois já não os sentia. Horas sem fim estrada adentro; estradas que desafiam a coragem de qualquer motorista e, mais ainda, de todos os passageiros.


Mais de dez horas foram consumidas até enfim chegarmos à fronteira. Era já tarde da noite, e um cansaço dolorido pedia, exigia, cama. O hotel onde ficamos, ironicamente chamado "Paradise", mostrava-se o exato oposto disso: paredes emboloradas, banheiro coberto de limo com vaso sanitário quebrado, interruptores amarelados pela gordura de dedos sem fim que passaram ali e cama infestada de percevejos, que davam as caras por entre os rasgos no colchão e depois escondiam-se novamente, tímidos.


Impossível ficar lá dentro. Lavo o rosto e as mãos com água mineral, sem coragem de usar a daquele lugar.


Manhã seguinte, novo e pior ônibus. Estradas ainda mais assustadoras, servindo a todo tipo de veículo e mostrando a cada buraco o enorme precipício à esquerda, rasgado por um caudaloso rio onde volta e meia apareciam aventureiros de rafting.


Peço para fazer parte da viagem sobre o teto do ônibus, e o motorista pára permitindo-me subir. A paisagem bota para correr todo o medo e apreensão com a estrada. O vento frio do país de Sidarta carrega o cheiro do mato, o cheiro de uma realidade diferente, de um pensamento diferente, de um lugar onde o tempo correu por outros caminhos.


É noite quando chegamos à cidade. Katmandu é daqueles lugares dos quais se ouve falar mas que não parecem existir de verdade. Casas combinam-se em um cenário impossível, música preenche todos os espaços, homens santos e trekkers dividem o espaço nas ruas.


A beleza dos monumentos, a enormidade das escadas que levam até alguns deles, as imensas estátuas douradas do Buda; tudo forma um ambiente quase etéreo.


Como de costume, me deixo perder pelas ruas, pedindo que me absorvam e me façam sentir o que é o lugar. É uma cidade que coloca-se acima do tempo, acima de descrições.


E se Katmandu não parecia real antes de visitá-la, termino o dia tendo quase a certeza de que não o é.


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Publicado por Renato Alt