11 de dez de 2011

~ :: Calcutá :: ~

A índia é um tema inesgotável. No entanto, antes que canse, prefiro parar. Este vai ser, ao menos por enquanto, o último texto a respeito da viagem. 


Não queria ficar em Calcutá. Me sentia mais na obrigação de ir à cidade, já que afinal de contas estava na Índia, do que empolgação: as outras cidades mais conhecidas - Varanasi, Delhi e Mumbai - eram um caldeirão tão caótico que temia encontrar o mesmo na cidade que a célebre albanesa abraçou com paixão.


Pretendia ficar dois dias, três: o suficiente para ver o que havia para ser visto, filmar o que houvesse a ser filmado, e então colocar novamente o pé na estrada: estava ansioso por conhecer Kerala, lugar que todos que encontrei, todos, disseram ser maravilhoso.


Eu não queria me enfiar campo adentro rumo a uma aldeia, onde a luz faltava a cada cinco minutos, não queria encontrar crianças - nunca tive jeito com elas. Não queria ficar de improviso em uma casa: mais de dois meses sem parar de viajar me pediam alguma calmaria.


Não queria nada daquilo. Não foi pra isso que viajei.
Mas não tive escolha.


Cheguei à Dakshin Barasat no final da tarde. Da estreita passagem que dá acesso à escola Maranatha, saíam, em seus uniformes azuis, crianças apressadas, satisfeitas, depois de um dia que começara ainda antes das 7 da manhã.


Sou apresentado ao que é a escola. Ao que acontece ali. Ao que acontecia a algumas daquelas crianças. Ao que poderia acontecer a elas se não estivessem ali.


Não tive escolha.


Todo o tempo em que trabalhei em agências de propaganda parecia, agora, convergir para um único ponto: Harvest Today Mission, a missão que transforma uma realidade cruel, mas ainda tão tímida diante de tantas outras ONGS.


Não tive escolha. Mas agora, escolheria de qualquer forma. Agora, a propaganda, a comunicação, fazem sentido.


As crianças fazem sentido.


Não vi em dois ou três dias o que Calcutá tinha pra mostrar. Pouco vi Calcutá. E os três dias transformaram-se em três semanas, e Kerala permaneceu lá, esperando por mim, e nunca cheguei.


Não lamento. Sou grato. Quisera ter mais tempo para estar lá.
A passagem, no entanto, era imperativa: não me permitia ficar um dia a mais.


Volto com a certeza do que fazer, e com a vaga idéia da dimensão de tudo isso.


E Calcutá tornou-se todo o objetivo da viagem, já o era antes que eu soubesse.


Não tive escolha. Me rendi, satisfeito.






•••
Publicado por Renato Alt

3 comentários:

Anônimo disse...

Tão bom não ter escolha quando a vida escolhe você para fazer algo bonito.
Tão legal ter um destino bonito escolhido para você.
Tão tudo se render.
Tão poucas pessoas escolhidas.
Você uma delas.
Crianças de Calcutá ganharam uma chance a mais.
Ganharam você.

Astéria Mesquita

( aperte o alt ) disse...

E foi bem isso mesmo, Astéria. Nada planejado por mim, mas já planejado por Deus. Tanto que, por mais que não tivesse sido algo que pensara fazer, não tinha dúvidas de que era, e é, o que deve ser feito.
Obrigado.

Nanda Castro disse...

No fim das contas sua 'falta de opção' te levou ao lugar mais importante, que talvez tenha dado sentido a toda essa viagem... ou ao contrario, a viagem te deu sentido a essa experiência. O tempo de reflexão te deu novos olhos pra o que talvez não enxergasse tão claramente.

Seja bem vindo de volta!