3 de dez de 2011

~:: Nepal: Katmandu ::~

Foi como se eu não tivesse escolha.

Enquanto jantava no terraço da guest house em Varanasi, um cartaz que esteve sempre ali dessa vez conseguiu fazer-se notar, como se fosse alguém sacudindo os braços: anunciava que vendiam, ali mesmo, passagens de ônibus para o Nepal.



Era daqueles destinos que sempre quisera ir. Perguntei sobre o valor e, sem pensar muito, marquei a passagem. Iríamos até a fronteira, passaríamos a noite em um hotel já incluído no valor do bilhete e, na manhã seguinte, seguiríamos até Katmandu.


O ônibus não tinha espaço para o tanto de pessoas que gostaria de crer conseguir carregar. Com as pernas viradas para o lado, sentia a circulação esforçando-se para chegar aos pés, mas poucos minutos depois já não os sentia. Horas sem fim estrada adentro; estradas que desafiam a coragem de qualquer motorista e, mais ainda, de todos os passageiros.


Mais de dez horas foram consumidas até enfim chegarmos à fronteira. Era já tarde da noite, e um cansaço dolorido pedia, exigia, cama. O hotel onde ficamos, ironicamente chamado "Paradise", mostrava-se o exato oposto disso: paredes emboloradas, banheiro coberto de limo com vaso sanitário quebrado, interruptores amarelados pela gordura de dedos sem fim que passaram ali e cama infestada de percevejos, que davam as caras por entre os rasgos no colchão e depois escondiam-se novamente, tímidos.


Impossível ficar lá dentro. Lavo o rosto e as mãos com água mineral, sem coragem de usar a daquele lugar.


Manhã seguinte, novo e pior ônibus. Estradas ainda mais assustadoras, servindo a todo tipo de veículo e mostrando a cada buraco o enorme precipício à esquerda, rasgado por um caudaloso rio onde volta e meia apareciam aventureiros de rafting.


Peço para fazer parte da viagem sobre o teto do ônibus, e o motorista pára permitindo-me subir. A paisagem bota para correr todo o medo e apreensão com a estrada. O vento frio do país de Sidarta carrega o cheiro do mato, o cheiro de uma realidade diferente, de um pensamento diferente, de um lugar onde o tempo correu por outros caminhos.


É noite quando chegamos à cidade. Katmandu é daqueles lugares dos quais se ouve falar mas que não parecem existir de verdade. Casas combinam-se em um cenário impossível, música preenche todos os espaços, homens santos e trekkers dividem o espaço nas ruas.


A beleza dos monumentos, a enormidade das escadas que levam até alguns deles, as imensas estátuas douradas do Buda; tudo forma um ambiente quase etéreo.


Como de costume, me deixo perder pelas ruas, pedindo que me absorvam e me façam sentir o que é o lugar. É uma cidade que coloca-se acima do tempo, acima de descrições.


E se Katmandu não parecia real antes de visitá-la, termino o dia tendo quase a certeza de que não o é.


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Publicado por Renato Alt

3 comentários:

Jeferson Cardoso disse...

Mais do que ironia, o ‘Paradise’ ali parecia sarcasmo [sorrio]. “O país de Sidarta, um lugar onde o tempo correu por outros caminhos” [sensacional, amigo!] Katmandu, não te vi mas quero te ver um dia! Olá, Renato! Eu também sou finalista do Prêmio Top Blog 2011. Mas estou entre os 3 eleitos pelos internautas. Cara, parabéns por seu trabalho aqui. Curti muito sua viajem; viajei. Sucesso! Abraço do blogueiro visitante!

Rodrigo disse...

Olá passei para conhecer seu blog ele é muito maneiro super organizado com ótimo conteúdo gostaria de parabenizar pelo excelente trabalho voltarei mais vezes no seu encantador
blog que Deus ilumine seus caminhos e de seus famíliares
Desejo muito sucesso

( aperte o alt ) disse...

Jefferson, eu tenho CERTEZA de que o nome do hotel foi piada. Alguém ficou rindo muito, mas não fui eu. Era bizarro, cara, inacreditável... tanto que fiz questão de documentar.

Parabéns por estar na final do TB! Não sei quanto a você, mas eu estou bem ansioso pelo dia 17.

Tomara que sua visita, agora, se torne presença constante.

Abração!

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Obrigado, Rodrigo! É importante demais ter um feedback... assim não fico achando que estou falando com as paredes. ;-)
Pode chegar sempre que a casa é sua!

Abração!