24 de jan de 2012

:: Refrão ::

Era um esforço físico, como nenhum outro, o que empreendia para afastar os pensamentos ruins. Às vezes colocava música alta, às vezes cantava junto com ela e ainda mais alto, incomodando os vizinhos, mas pouco importava. Respirava fundo e tentava ocupar-se com o que quer que fosse.


Mas bastava deixar o olhar perdido por um segundo, e tudo lhe vinha como um estouro de boiada, atropelando sua razão com uma ferocidade atroz que lhe fazia perder a força, sentir como se pesasse uma tonelada, e que não haveria poder no mundo capaz de arrancá-lo daquela cadeira e daquele marasmo.


Pensava no futuro, e na família, e no que é que lhe aguardava nos próximos dias. Às vezes precisava sair de casa. Recontava os anos passados, um a um, perguntava-se a respeito de como teriam sido as coisas se tivesse feito uma outra escolha, se tivesse caminhado por outra estrada, se tivesse aceitado alguns convites e recusado outros.


Atormentava-o a eterna questão: "e se".


Agora já não confiava em ninguém. Há tempos decidira manter superficiais todas as amizades que firmasse. Ainda que alguns dissessem que isso, desse jeito, não era amizade verdadeira; mas as gentes - todas essas que desfilavam em sua memória e que, cada uma a seu tempo, deixaram claro que só caminhavam consigo enquanto fosse interessante.


Por isso ele, agora, consciente, caminhava sozinho. E empurrava, em um esforço físico como nenhum outro, todos os rostos antigos para fora da sua cabeça, enquanto mantinha a sua abaixada e coberta pelo capuz do moletom, protegida da chuva fina e fria que banhava a noite.


•••
Publicado por Renato Alt

12 de jan de 2012

:: Nadir ::

Ninguém o entendera, e agora já não havia quem o quisesse entender.
Mas ele desistira há tempos de tentar explicar: só a idéia de fazê-lo novamente trazia para sobre seus ombros todo o cansaço do mundo.


Resumia seus dias àquilo que fazia sem alarde, resolvendo seus problemas com movimentos curtos, palavras decididas, respirações contadas.


E, mais e mais, percebia-se habitando um lugar à parte, do qual gostava. Lembra, com estranhamento, o quanto temia chegar um dia à condição em que estava, e como agora sente-se bem por não estar em qualquer outra.


Não era amargo. Não era carrancudo, ou assustador, ou um velho cheio de animais em casa e que estourava a bola dos meninos que jogavam futebol na calçada; pelo contrário, lhes eram agradáveis, e eles, os meninos, cumprimentavam com simpatia aqueles olhos da idade do mundo que ficavam à janela dia após dia.


Mas simplesmente não tinha mais vontade de ninguém. Era uma absoluta necessidade de nada, uma absoluta necessidade de simplesmente ser aquilo que era, fosse o que fosse, sem precisar buscar compreensão para isso.


Cansara do jogo de aceitação. Cansara dos incontáveis jogos amorosos em que se metera por tantos anos. Cansara das pessoas que são diferentes coisas conforme são diferentes os momentos, e decidira, em uma lúcida e racional decisão, ser apenas para si, e isso lhe bastava.


Às vezes conversava com pessoas quando saía para almoçar, às vezes conversava com quem o procurava na internet: era sua alma o que ele tinha de velho, e não sua idade.


E foi a epifania de um momento o que lhe trouxe a paz que pensava, ora vejam só, estar em outro, em outros, em uma ciranda viva que não tem leme, não tem propósito, e engole e expulsa e arrasa conforme seu bel-prazer, seu próprio apetite; ele, simplesmente, colocou-se à parte disso. E vivia bem, e como vivia: seus valores estavam agora nos lugares certos.


Assim, nenhum de seus passos era desperdiçado, nenhum pensamento era em vão, nenhuma dispersão ocupava sua mente enquanto fazia o que havia que ser feito.


Leve, mãos nos bolsos, headphone nos ouvidos servindo I Will Follow You Into The Dark. Death Cab For Cutie.


O final de tarde pedia uma caminhada pelo calçadão da praia: com toda a liberdade que conquistou, sem precisar de mais do que querer, saiu. Sem hora para voltar.


•••
Publicado por Renato Alt

3 de jan de 2012

:: Nubígena ::

O sonho era o mesmo. Ele o tinha todas as noites.

Estava parado em no começo de uma rua de paralelepípedos, e uma névoa baixa a cobria em toda a sua extensão.


Não via, mas percebia, que em cada casa onde houvesse janela havia, também, alguém olhando por ela: uma senhora, um homem de monóculo fumando cachimbo, uma menina que raras vezes podia sair para o quintal.


No sonho, ele, o sonhador, era menino, mas menino que nunca foi, de uma época que nunca viveu: usava bermuda curta, meias longas, paletó de colégio, cujo nome ele sabia que sabia, mas não poderia dizer, porque não havia porque dizer: já o sabia.


Ele ficava olhando a rua. Precisava atravessá-la, chegar à casa do outro lado, ainda que não a visse, ainda que não soubesse por quê. Mas havia a necessidade urgente, angustiante, de saber-se lá, antes que algo acontecesse, um algo que lhe espreitava das esquinas, que o seguia desde sempre, que sabia o que era sem precisar lembrar-se.


De suas janelas, eles, os outros, olhavam-no, sem expressão, sem emoção. Apenas eram. Eram o que eram, fossem o que fossem, e pouco importava.


A névoa era viva, e ruidosa como só um sonho a pode fazer, e gelada e sufocante e intensa como um calafrio que percorre todo o corpo e insiste em não dissipar-se nunca.


Como todo o sonho, era eterno. 


Sentia a casa chamando-o. Era familiar e desconhecida. Era algo nele, profundo, com seu tanto de cômodos, cantos e recantos inexplorados, que jamais tivera coragem de encarar, que jamais tivera coragem de adentrar, e que deixara soterrar por anos e anos de indiferença e covardia e negligência.


Mas ela voltava. E agora, noite após noite. Roubava-lhe o sono nas horas silenciosas, roubava-lhe a calma durante as horas tranquilas.


E era sempre, sempre, quando finalmente resolvia avançar, quando finalmente vencia as sombras, o frio, o vento e os olhares, e esticava a perna e posicionava os pés, e lançava seu peso à frente e respirava fundo, o despertador tocava.


Ele acordaria, de novo, envolvido em suor, camisa colada ao peito, coração acelerado, olhos incomodados pelo brilho do sol que esgueirava-se pela cortina semitransparente que separava seu quarto da realidade do mundo.


Permanecia com o pensamento por uns dez ou vinte minutos. Durante o banho, já era algo confuso, e no segundo café, completamente esquecido.


Mas a noite viria. E mesmo sem o saber, ele já a temia: traria, consigo, o sonho, e a casa, e os rostos.

•••
Publicado por Renato Alt