12 de jan de 2012

:: Nadir ::

Ninguém o entendera, e agora já não havia quem o quisesse entender.
Mas ele desistira há tempos de tentar explicar: só a idéia de fazê-lo novamente trazia para sobre seus ombros todo o cansaço do mundo.


Resumia seus dias àquilo que fazia sem alarde, resolvendo seus problemas com movimentos curtos, palavras decididas, respirações contadas.


E, mais e mais, percebia-se habitando um lugar à parte, do qual gostava. Lembra, com estranhamento, o quanto temia chegar um dia à condição em que estava, e como agora sente-se bem por não estar em qualquer outra.


Não era amargo. Não era carrancudo, ou assustador, ou um velho cheio de animais em casa e que estourava a bola dos meninos que jogavam futebol na calçada; pelo contrário, lhes eram agradáveis, e eles, os meninos, cumprimentavam com simpatia aqueles olhos da idade do mundo que ficavam à janela dia após dia.


Mas simplesmente não tinha mais vontade de ninguém. Era uma absoluta necessidade de nada, uma absoluta necessidade de simplesmente ser aquilo que era, fosse o que fosse, sem precisar buscar compreensão para isso.


Cansara do jogo de aceitação. Cansara dos incontáveis jogos amorosos em que se metera por tantos anos. Cansara das pessoas que são diferentes coisas conforme são diferentes os momentos, e decidira, em uma lúcida e racional decisão, ser apenas para si, e isso lhe bastava.


Às vezes conversava com pessoas quando saía para almoçar, às vezes conversava com quem o procurava na internet: era sua alma o que ele tinha de velho, e não sua idade.


E foi a epifania de um momento o que lhe trouxe a paz que pensava, ora vejam só, estar em outro, em outros, em uma ciranda viva que não tem leme, não tem propósito, e engole e expulsa e arrasa conforme seu bel-prazer, seu próprio apetite; ele, simplesmente, colocou-se à parte disso. E vivia bem, e como vivia: seus valores estavam agora nos lugares certos.


Assim, nenhum de seus passos era desperdiçado, nenhum pensamento era em vão, nenhuma dispersão ocupava sua mente enquanto fazia o que havia que ser feito.


Leve, mãos nos bolsos, headphone nos ouvidos servindo I Will Follow You Into The Dark. Death Cab For Cutie.


O final de tarde pedia uma caminhada pelo calçadão da praia: com toda a liberdade que conquistou, sem precisar de mais do que querer, saiu. Sem hora para voltar.


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Publicado por Renato Alt

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