3 de jan de 2012

:: Nubígena ::

O sonho era o mesmo. Ele o tinha todas as noites.

Estava parado em no começo de uma rua de paralelepípedos, e uma névoa baixa a cobria em toda a sua extensão.


Não via, mas percebia, que em cada casa onde houvesse janela havia, também, alguém olhando por ela: uma senhora, um homem de monóculo fumando cachimbo, uma menina que raras vezes podia sair para o quintal.


No sonho, ele, o sonhador, era menino, mas menino que nunca foi, de uma época que nunca viveu: usava bermuda curta, meias longas, paletó de colégio, cujo nome ele sabia que sabia, mas não poderia dizer, porque não havia porque dizer: já o sabia.


Ele ficava olhando a rua. Precisava atravessá-la, chegar à casa do outro lado, ainda que não a visse, ainda que não soubesse por quê. Mas havia a necessidade urgente, angustiante, de saber-se lá, antes que algo acontecesse, um algo que lhe espreitava das esquinas, que o seguia desde sempre, que sabia o que era sem precisar lembrar-se.


De suas janelas, eles, os outros, olhavam-no, sem expressão, sem emoção. Apenas eram. Eram o que eram, fossem o que fossem, e pouco importava.


A névoa era viva, e ruidosa como só um sonho a pode fazer, e gelada e sufocante e intensa como um calafrio que percorre todo o corpo e insiste em não dissipar-se nunca.


Como todo o sonho, era eterno. 


Sentia a casa chamando-o. Era familiar e desconhecida. Era algo nele, profundo, com seu tanto de cômodos, cantos e recantos inexplorados, que jamais tivera coragem de encarar, que jamais tivera coragem de adentrar, e que deixara soterrar por anos e anos de indiferença e covardia e negligência.


Mas ela voltava. E agora, noite após noite. Roubava-lhe o sono nas horas silenciosas, roubava-lhe a calma durante as horas tranquilas.


E era sempre, sempre, quando finalmente resolvia avançar, quando finalmente vencia as sombras, o frio, o vento e os olhares, e esticava a perna e posicionava os pés, e lançava seu peso à frente e respirava fundo, o despertador tocava.


Ele acordaria, de novo, envolvido em suor, camisa colada ao peito, coração acelerado, olhos incomodados pelo brilho do sol que esgueirava-se pela cortina semitransparente que separava seu quarto da realidade do mundo.


Permanecia com o pensamento por uns dez ou vinte minutos. Durante o banho, já era algo confuso, e no segundo café, completamente esquecido.


Mas a noite viria. E mesmo sem o saber, ele já a temia: traria, consigo, o sonho, e a casa, e os rostos.

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Publicado por Renato Alt

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