24 de jan de 2012

:: Refrão ::

Era um esforço físico, como nenhum outro, o que empreendia para afastar os pensamentos ruins. Às vezes colocava música alta, às vezes cantava junto com ela e ainda mais alto, incomodando os vizinhos, mas pouco importava. Respirava fundo e tentava ocupar-se com o que quer que fosse.


Mas bastava deixar o olhar perdido por um segundo, e tudo lhe vinha como um estouro de boiada, atropelando sua razão com uma ferocidade atroz que lhe fazia perder a força, sentir como se pesasse uma tonelada, e que não haveria poder no mundo capaz de arrancá-lo daquela cadeira e daquele marasmo.


Pensava no futuro, e na família, e no que é que lhe aguardava nos próximos dias. Às vezes precisava sair de casa. Recontava os anos passados, um a um, perguntava-se a respeito de como teriam sido as coisas se tivesse feito uma outra escolha, se tivesse caminhado por outra estrada, se tivesse aceitado alguns convites e recusado outros.


Atormentava-o a eterna questão: "e se".


Agora já não confiava em ninguém. Há tempos decidira manter superficiais todas as amizades que firmasse. Ainda que alguns dissessem que isso, desse jeito, não era amizade verdadeira; mas as gentes - todas essas que desfilavam em sua memória e que, cada uma a seu tempo, deixaram claro que só caminhavam consigo enquanto fosse interessante.


Por isso ele, agora, consciente, caminhava sozinho. E empurrava, em um esforço físico como nenhum outro, todos os rostos antigos para fora da sua cabeça, enquanto mantinha a sua abaixada e coberta pelo capuz do moletom, protegida da chuva fina e fria que banhava a noite.


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Publicado por Renato Alt

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