3 de fev de 2012

:: Ária (em quarta corda) ::

Ele olhava incrédulo para a foto sobre a estante.


Fora um instante onde riram juntos, onde alguém, um alguém com câmera fotográfica vendendo momentos a vinte reais, registrara-os, despreocupados, desapercebidos da atenção que recebiam da câmera, flagrados desarmados e sinceros enquanto seguravam um brinquedo barato, que acabaram de ganhar em uma das barraquinhas do parque de diversões.


Ele nunca comprava dessas coisas. Comprara aquela. Não sabia, na hora, por que o fizera, mas agora, sabia tão profundamente que nem sequer podia expressar.


Olhava a foto, apertava-a entre as mãos; não era das preferidas deles, não estava bem focada, não mostrava direito o rosto nem de um e nem de outro. Mas registrara, com alguma força além da explicação, algo que representava tudo aquilo: o doce exagerado no açúcar que ela comia, e que nenhum outro sabor deixava aparecer que não o dele próprio; as pipocas salgadas que ele comentara, instantes antes, que assim estavam propositalmente, para que comprassem refrigerantes sem gás e água quente engarrafada, às pressas, nos quiosques desesperados por compradores.


Ele olhava incrédulo para a foto sobre a estante.


Ainda ontem estiveram juntos, e discutiram juntos, e acalmaram-se juntos e perceberam, juntos, que era melhor estarem assim do que tentando a própria sorte por esses mesmos caminhos incertos, obscuros, que quase sempre à nada levavam mas que precisam, no final, de um lugar para o qual retornar.
Ela não retornara.


E, por isso, ele olhava incrédulo para a foto sobre a estante.


A vida seguiria adiante, chamando-se "vida" por não haver alternativa para denomina-la; "existência", talvez. A brutalidade, o susto, o inesperado, a irresponsabilidade a haviam arrebatado, e ele com as mãos abertas, viu quando a tiraram de suas mãos: sem aviso, sem alerta; apenas um imenso estrondo que, em um minuto, pusera tudo ao chão.


Ele olhava incrédulo para a foto sobre a estante. Mas havia que continuar, porque assim ela o exigiria, porque assim a vida o exigiria, porque assim a sanidade o exigiria, e ele, voto vencido, nada poderia fazer a respeito.


Olhava incrédulo para a foto sobre a estante e, mais uma vez, apertava o nó da gravata, apertava o nó na garganta, e seguia para mais um dia de sorrisos e falsas condolências daqueles que, na verdade, o diziam pela conveniência, mas que nunca souberam o privilégio que era, afinal, estar com ela.


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Publicado por Renato Alt

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