15 de fev de 2012

:: Caríbdis ::

Ela já havia dirigido por mais de hora e meia, esperando que ele parasse de chorar e, talvez, que seu rosto perdesse um pouco da vermelhidão e do inchaço, para que pudesse passar pela portaria sem chamar atenção - ainda que, à essa hora, já não houvesse mesmo qualquer um que prestasse atenção em como pareceria, e menos ainda quem se importasse com isso.

Ela viera falando de outras coisas, amenas, do dia a dia, de quem não quer abordar um assunto e que por isso fica às suas margens em toda frase que pronuncia, mascarando, quem sabe, a própria dor, com historietas engraçadas e casos do cotidiano, fingindo uma normalidade e uma rotina que ela própria encerrara ali, com um olhar, sem qualquer aviso.


Mas, ainda que não admitisse, ele previra.

Quando desceu do prédio e a viu do outro lado da rua, esperando-o como nunca antes fizera, cabisbaixa como nunca antes estivera, sabia. Não havia que falar nada. Não queria, ele, ouvir nada. Mas, ainda assim, ela falou, e toda palavra pronunciada era desnecessária, dolorida, agressiva: mais uma vez, pensava ele, mais uma vez; e olhava o céu da sexta-feira que encerrava a semana trazendo consigo nuvens pesadas e cinzentas, anunciando a chuva que se insinuara durante toda a semana.


Agora viera ela, a chuva, e vertia torrencialmente pelas janelas e por seus olhos.

O carro havia parado há já algum tempo, mas ele ainda não reunira forças para sair. Olhava para o rosto dela, e ele, o rosto, permanecia indiferente, evasivo. Olhava para si mesmo, fraco, derrotado.


"Não há mais nada para mim aqui", pensou.

Despediu-se com um olhar, correspondido de alguma forma que não fez questão de interpretar.

E, com uma serenidade que não cabia no momento, fechou a porta ao sair.



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Publicado por Renato Alt

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