29 de fev de 2012

:: Sopro ::

A gente sabe, não sabe?

Pressente.

A manhã fora como todas as outras: café da manhã, poucas palavras por causa do sono, um ou outro comentário sobre a última coisa que alguém viu antes de dormir.

A mãe comentava que desligou a TV do quarto dele quando foi dar-lhe boa noite, mas já o encontrara dormindo.


Não havia sol, porque era inverno, e era daqueles dias que definem a estação: céu acizentado, prometendo chuva que nunca vinha, vento frio que fazia as árvores arremessarem para todo lado o que restava de suas folhas. O chão estava coberto delas, e de umidade, e de preguiça, e de uma vontade eterna de voltar correndo para casa e esconder-se debaixo do edredon que parecia pesar uma tonelada quando o despertador, impiedoso, anunciava a hora de levantar.


Era manhã como qualquer outra, e como nenhuma outra. A gente percebe, não percebe? Difícil dar nome, impossível enquadrar em palavras, mas havia algo no ar: uma densidade, uma eletricidade, um pesar, uma tensão. Tudo que é fácil afastar do pensamento, relegando à condição de mera impressão, mas que martelava na cabeça como verdade inviolável.


Ele acompanhara o irmão mais novo até a escola. Não porque precisava, afinal já tinha seus 15 anos, mas porque quisera e porque sua próxima entrevista de emprego ainda estava três horas à frente. Parou por um instante antes de desejar-lhe um bom dia, sem saber ao certo o por que e menos ainda o que dizer; então, após alguns segundos encarando-o, disse que não era nada, e desejou-lhe o bom dia.

Era daqueles dias em que a irracionalidade vem à tona, em que o inexplicável vem à tona, em que os loucos encontram caminho para levar adiante toda a sua loucura, e portam armas, e desejos, e raiva, e desumanidade, e um tanto de outros sentimentos que não encontram parâmetros em nada do que se pode escrever, pensar ou lembrar.

Em dias como este, pressentimos. Ainda que não saibamos bem o quê,  ou por que, pressentimos.

E a falsa calmaria do dia, no final da tarde, é então cortada por sirenes de bombeiros, de polícia, de ambulâncias; a calmaria da rua é interrompida por vans de emissoras de TV, e multidões querendo saber o que houve, com quem, e por quê.

Não há por quê. É essa a grande tragédia.

E o circo armado pouca importância dá àqueles que choram, abraçados a desconhecidos, procurando sentido em tudo o que houve, limitando-se a transmitir em rede nacional, em meio ao jantar, a tantos que mal sabem de qual cidade estão falando, que confundem-se com os números que lhes dão, e que não se importam em cortar uma frase importante com o pedido para que lhes passem mais feijão.

O segundo ato começa quando desligam a TV, esses tais, e vão dormir à espera do dia seguinte; enquanto eles, os primeiros, buscam no dia seguinte algo que lhes diga que, afinal, vale a pena seguir adiante.



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Publicado por Renato Alt

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