21 de mar de 2012

:: Cornucópia ::

Escreveu porque escrevia sempre, para depois ler e reler, até que tudo o que escrevera tornava-se verdade indubitável: a única verdade que sempre existira, desde que o tempo é tempo, e que permaneceria até quando a memória enfraquecesse.

Rasgava o papel, queimava suas sobras, e esquecia-se: por efeito, nunca existira.


Mas o que havia não era, ainda, bom o suficiente. Havia que melhorar.


O primeiro emprego não era bom. Ainda não. Pensava, agora, em uma grande abdicação, um grande momento de altruísmo. Decidira: uma ascensão rápida. Creditaria, veladamente, ao seu grande empenho e inteligência.Talvez algo relacionado à economia. 


Essa era, então, a verdade absoluta: que sempre fora, que sempre seria.


Pensava agora na epifania: o momento de arroubo que levou-o a dedicar sua vida a algo mais; enquanto, claro, tal algo mais fosse interessante. Era o que cabia, ali, naquele momento, naquela cidade, àquelas pessoas.


Para si, um amor mal resolvido. Talvez fosse um tanto dramático; bastaria algo que mantivesse as pessoas afastadas por algum tempo, e ele já aprendera que as histórias mais fantásticas são, às vezes, as mais difíceis de questionar. Pouco importa: para muitas perguntas, o silêncio era a melhor resposta.


E foi o que aconteceu.

Sim, havia que explicar as marcas no corpo.

Um acidente de carro.

Perfeito.


Poderia, inclusive, explicar com ele o tal amor mal resolvido: a perda trágica! Sempre responde mais questões do que se imagina. E assim, então, já não era mal resolvido, mas perdido: como sempre fora; perdido. Perdido.

Olhava à frente, pela janela, e via as pessoas que iam e viam, que não sabiam que por, detrás daquela vidraça há tanto tempo solitária, agora havia alguém que as olhava, e pensava, e articulava palavras e histórias e pensamentos que seriam divididos com alguém na primeira oportunidade; afinal, ele sabia, nada melhor para que fossem espalhados como fogo em terra seca, tornando-se verdade inquestionável antes mesmo da manhã seguinte, antes mesmo que alguém ousasse confrontá-lo com perguntas.


E esse era ele, como sempre fora.


Então, uma vez escrito e sentido, despedaçava e queimava os papéis: já não havia necessidade deles. A verdade sobre si estava escrita na história.


Abriu, então, as janelas, e deixou-se ver enquanto tomava fôlego naquela cinzenta manhã de inverno.



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Publicado por Renato Alt