5 de abr de 2012

:: Metanoia ::

Foram tantas as vezes pela qual passara por isso que, ingenuamente, inexplicavelmente, considerava-se de alguma forma curado; de alguma forma acima dessas mazelas que atormentam a alma mais do que quaisquer outras, que roubam o sono mais do que quaisquer outras, que roubam a atenção, a concentração, e que exigem suspiros inconvenientes a toda hora, sem importarem-se com lugar, pessoas ou situação.

Estava, sim, decidido, convicto, a não deixar-se mais passar por aquilo:as noites de perguntas sem fim, as semanas que passavam em vão, os três dias que compreendiam o final delas e que tão pouco podiam dizer a respeito do seu futuro; seria com ela? Dois mundos tão diferentes, com destinos tão opostos, onde qualquer conversa implicava em discussão a respeito de vírgulas colocadas em lugares duvidosos, de interrogações que não precisavam existir, de pontos finais que exigiam silêncio quando o mais importante ainda estava por dizer.

Acontecera mais uma vez, ele não podia negar. Não tinha qualquer intenção: a conhecera por um acaso, em uma situação inusitada, e tanto surgira em comum que lhe era inevitável, contra todas as suas forças, interessar-se por ela.

Mas ela, contudo, não se interessara por ele. Ao menos, não da forma como pretendia; não da forma como sonhava.


Concluía, agora, que algumas coisas não lhe eram reservadas, e já o fazia sem a melancolia que a idéia propõe. São apenas coisas de como a vida é, e os porques que explicam a si mesmos tão rapidamente quando surgem.

Agora, ele já preparava as malas para o que sabia que viria, e que sabia ser melhor seguir sozinho. Afinal, convencera-se, era esse o motivo pelo qual não havia ainda constituído uma família, o motivo pelo qual não deixara a criança alguma, como herança, seu sobrenome.

Era terra distante, para onde poucos saberiam que iria, e era assim que queria: uma vida de mundo, de lugares e de pessoas, de experiências e significados que talvez fizessem sentido só a si; mas a quem mais deveriam fazer?

Ouvia a voz mecânica convocar o embarque.
Olhara para trás mais uma vez, mesmo sem saber bem o motivo, e sorrira: foi quando tudo o mais lhe deu certeza de que esse era o caminho.

À bordo.



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Publicado por Renato Alt