29 de mai de 2012

- Hilé

Era uma imensa vontade de nada, de não ser, de inexistir. Era o mais profundo e absoluto desinteresse de coisas, de pessoas, de vozes.


Percebera, sem rancor ou mágoa, que podia, às vezes, ter necessidade de gente: então circulava, olhava, falava com quem quer que fosse, qualquer assunto que fosse, e a urgência o deixava; um segundo mais e lhe tomava o inefável cansaço da superficialidade que ele próprio buscara.

Não procurava por ninguém há tempos, e há tempos não via qualquer motivo para fazê-lo. Estava se desumanizando, pensava às vezes, quando não pensava que o estavam todos os outros: aqueles que riam por rir enquanto tomavam café, que iam e viam, sem que nem porquê.

Refugiava-se em si mesmo: música, pensamentos, rabiscos no papel e letras jogadas por aqui e por ali. Eram sua companhia, principalmente quando sabia não ser ele próprio a melhor companhia para si.

Não era rancor, não era mágoa, em absoluto. Pensava e sentia com a lucidez de quem passara a enxergar as coisas com uma distância covarde, segura: decidira trancar sentimentos onde não se pudesse encontrá-los, nem ele nem mais ninguém, e conformara-se com o estado de coisas.

Os dias insistiam, como sempre, em sobrepor-se, e ele, como sempre, com os pensamentos distantes daqui: mantinha os olhos voltados para o horizonte, pois já lá estivera, e sabia que haveria de voltar. Ainda que nenhuma palavra se fizesse entender, perdido, sozinho, e completo em si mesmo.



•••
Publicado por Renato Alt