21 de jun de 2012

Chauvet-Pont-d'Arc

Eram alguma peças soltas no jardim, perdidas.

Duas crianças esculpidas no que parecia ser calcário ou pedra branca barata, inacabadas; estiveram os dois, um dia, na gangorra, agora quebrada, e já a menina esperava sozinha, no alto, pelo impulso do menino que caíra e jazia na grama, recoberto pelo limo. A ele faltava o nariz, um dos olhos estava preto. A menina mantinha um sorriso para ninguém, porque não havia quem passasse na calçada em frente à ela, não havia quem sorrisse de volta, e o braço que manteve um aceno permanente por tanto tempo agora estava, também, na grama.

O outro lado do pequeno caminho de pedras sepultava um balanço. Duas hastes de metal, correntes e uma pequena cadeira de plástico, quebrada em cima como se tivera levado mordida. No meio, água acumulada e gelada, que por algum motivo ela fizera questão de tocar, tirando uma das luvas das mãos.

Havia ferrugem, anunciada pelo vento que empurrava, com esforço, o balanço.

Os degraus do pórtico estavam encharcados, e pareciam estar sempre assim mesmo quando havia sol. Não era o caso, no entanto: o dia nascera com pesadas nuvens que respiravam fundo segurando a chuva, mas que a qualquer momento a lançariam sem dó sobre qualquer incauto andando pelas ruas.

Por algum motivo ela os evitara, os degraus, e num pequeno salto foi direto à varanda. Havia uma cadeira que já não balançava há tempos, olhando para o que talvez fosse a direção do sol poente, quando esse se dispunha a aparecer.


Porta de tela, rasgada. Porta de madeira, aberta.

Metade da tarde, e já era frio como a madrugada. Não havia muito ali dentro agora: pertences que, no final, não mais pertenciam a ninguém, e foram deixados para apodrecer e condenados ao esquecimento, como fora a própria casa. Um retrato emoldurado em vidro jazia no chão, escurecido, embolorado, tentando esconder aqueles que mostrara, noutros tempos, orgulhoso: o casal olhando para o nada, para o passado.


Chegara o momento do lugar vir ao chão; tudo havia sido vendido. Ninguém reclamara o lugar. Não havia registro de posse, não havia qualquer rastro de quem ocupara o lugar. Para a esta cidade esquecida, a casa jamais existira - e jamais existiram aqueles que um dia moraram nela, tão breve sua madeira e tijolos virassem aterro.

Os cômodos, todos, contavam a mesma história: de frio, mofo, descaso e desesperança, abadono e pouco caso. Papéis úmidos ilegíveis, parte de uma boneca de plástico assustadora e marcas nas paredes que um dia significaram alguma coisa.

Ela fizera seu papel, inspecionando o lugar. Os colegas achavam que demorava demais, preferiam quando outro o fazia. "Muito emocional", diziam.

Para ela, no entanto, era o mínimo que a casa merecia, em memória das histórias que um dia guardou e que ainda poderia contar, não tivesse a construtora ouvidos moucos.


Assinado o relatório, volta para o carro e para a casa, sob a chuva que enfim caía.

Os tratores iriam agora começar seu trabalho.





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Publicado por Renato Alt

Um comentário:

Gustavo S. disse...

Muito bem escrito, e o tema também foi interessante.