5 de jun de 2012

Deslace

Não há como explicar. Há que sentir. Há que ser assim, na esperança de uma epifania que acabe com tudo de vez, ou que, de vez, leve tudo consigo.

Era manhã daquelas em que o sono acabava antes do tempo: cedo demais para levantar, muito tarde para voltar a dormir. Assim, voltava-se para dentro de si, e o que encontrava lhe era, cada vez mais, desagradável. Trazia consigo, então, a angústia, e o suor e a taquicardia e a inquietação que o fazia ofegante enquanto tateava no escuro do quarto buscando o pequeno frasco de paz industrializada, que com quatro gotas o entorpecia e tornava tudo um pouco - apenas um pouco - mais tolerável.


Nessas manhãs, contava os minutos para sair de casa. Saía muito mais cedo e chegava antes de todos ao escritório. Esperava que ao menos isso fizesse que o enxergassem como empregado dedicado, que de fato era, consumindo trabalho após trabalho na tentativa exaustiva de empurrar qualquer outro pensamento para fora de sua cabeça, que não lhe desse ao espírito tempo suficiente para questionar o que estava fazendo ali dia após dia, para quem ou por quê.


Mas o caminho que iniciara, a contragosto, já não não podia ser desfeito. Perdia, a cada dia, qualquer conexão com as pessoas ali, com as coisas dali, com os valores, com as idéias, com os objetivos que foram um dia seus e que agora lhe traziam um profundo, inesgotável, infinito cansaço.


E então, sem qualquer aviso, disseram que não precisava voltar no dia seguinte.

A humilhação pela demissão, no entanto, lhe causava estranheza: havia também alguma outra coisa que não conseguia definir.

Súbito, caminhando para o ônibus sob a fina garoa que fazia o asfalto brilhar naquela noite fria, simplesmente percebera: agora, o mundo estava à sua disposição, e chamava-o para os caminhos distantes que sonhara quando criança.

Veio o sorriso, veio a calmaria autêntica: a de descobrir o que não quer mais, mesmo sem saber o que viria pela frente.

Caminhava, agora, não de volta para casa, mas rumo ao horizonte.


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Publicado por Renato Alt

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