6 de ago de 2012

Anástasis

A apatia dera lugar a um nervosismo sem nome, enquanto ele olhava para a esteira das malas esperando que a sua bolsa aparecesse. Chegava a desejar que não viesse, e que isso o prendesse à burocracia do aeroporto por mais um par de horas, e que passado esse par de horas, a alfândega lhe pedisse para ver peça por peça de roupa, bolso por bolso.

Ouvia aqueles que saíam, ouvia alguns gritos, ouvia os sons que se ouve em um saguão como aquele: risos, e choro, e plástico sendo rasgado por crianças ansiosas por novidades.

Agora desejava ter feito a barba, ou cortado o cabelo, ou colocado alguma roupa melhor. Pensou que talvez fosse desmaiar, mas logo a sensação passou. O rosto estava oleoso, a camisa colada nas costas, a calça surrada depois de tantos meses indo e vindo de lugares dos quais a maioria das pessoas nem sequer ouviu falar.

Sua bolsa aparecera. O plástico que a enrolava já destruído, e os cadeados esforçavam-se por manterem unidos os fechos distribuídos aqui e ali.

Tudo o que tinha: a bolsa de mão e agora essa, apenas um pouco maior, mas que lhe doía no ombro que já marcara durante horas e horas de marcha.

A porta automática aguardava, silenciosa.

 Parou para lavar o rosto no banheiro. O cabelo estava imenso, desgrenhado. Molhou-o, ficou pior, arrancou um boné da bolsa e enfiou na cabeça. Bochechou, cuspiu. Seus olhos estavam horríveis. Colocou óculos escuros.

A porta automática aguardava, silenciosa.
Nada a declarar; sinal verde.

Respirou fundo, vestiu um sorriso, e deixou que as portas abrissem: os cheiros, os sons, a claridade, o calor, atingiram-no como um soco no peito, enquanto os olhos buscavam por qualquer rosto conhecido, enquanto os ouvidos esperavam a pronúncia do seu nome.

Voltaria hoje, era sabido.

Mudara tanto quanto imaginava?
Tirou os óculos. Olhou novamente.

Alguém saindo depois dele pediu licença: estava no caminho. Viu quando as pessoas encontravam-se umas com as outras, e viu como tudo parecia mover-se em câmera lenta.

Celular ligado: nenhuma chamada perdida. Nenhum correio. Nenhuma mensagem. Tirou o boné, passou as costas da mão pela testa.

- Táxi, senhor?

Esfregou as mãos pelo queixo, olhou para o mezanino, olhou com os olhos apertados pelas paredes de vidro para o dia que chegava ao fim do lado de fora, em um melancólico amarelo alaranjado que em breve estaria submerso no mar do Arpoador.

- Táxi, senhor?

Outras pessoas levantavam-se para estar próximas ao desembarque: mais uma chegada acabava de ser anunciada.

- Táxi, senhor?

Suspirou. Recolocou boné e óculos.

Em silenciosa anuência, começou a caminhar junto ao taxista, que parecia falar de milhares de quilômetros de distância:

- Primeira vez no Rio?

•••

Um comentário:

Nanda Castro disse...

O que me veio a mente ao ler esse texto foi a palavra "expectativa". Acho que esse é o principal problema em quase todas as situações... No caso do texto, expectativa negativa ao chegar e expectativa que alguém se importasse realmente com a volta.
Pra que esperar algo ou querer adivinhar o futuro? Pra que gastar energia no que nao aconteceu, e é bem possível que nao aconteça?
Desculpe a viagem, mas é a reflexão que ficou após a leitura.

Beijos!