24 de set de 2012

Fabricante-de-anjos

Ninguém fazia idéia: a luta vinha há há muitos meses, travada no silêncio inenarrável que ele engolia junto com a saliva. Não deixava transparecer em seu rosto; ele, ator por formação, aprendera uma técnica ou duas que lhe permitiam manter o semblante sereno, ainda que sentisse enfiada no peito aquela bola de chumbo imensa, presente, pungente, que mal lhe permitia respirar, que embotava os sentidos e fazia questionar todo o modo de ser das coisas, dos valores, dos relacionamentos, da cumplicidade, do amor, do tesão, de ser e de viver.

De repente flagrava a si mesmo vendo o mundo rodar, e realizava o óbvio: que  esse rodava sem importar-se com o que ele sentia, ou vivia ou pensava ou sonhava ou destruía. O imenso peso da razão de ser do universo caía, agora, sobre seus ossos, derrubava-o, pelos ombros, ao chão.

E pensava, olhando ao redor, e via seus movimentos cortados tão logo tentavam aparecer, tão logo o horizonte ameaçasse trazer algo novo. E, assim, aos poucos, percebia-se forçado a crer que não caberia a ele viver a vida que esperava, menos ainda a que sonhava: haveria que viver a vida que lhe cabia; sabia, também, que qualquer escolha que o levasse para longe disso o faria miserável, um eterno desertor, alguém que vaga pelo limbo à procura da redenção que nunca virá.


A dor da solidão é a mesma, sempre. Pouco importa agora, no entanto; via o caminho pedregoso à frente de si, mas, pela primeira vez, não via nenhum outro.

Alívio, talvez. Temor, sim. Muito.

Há que caminhar onde há que caminhar. Era tão claro, finalmente, que custava crer que, pouco antes, não via assim: são outros os sonhos, são outros os afazeres, são outras as conquistas.

É outro o mundo. E enfim ele o enxergava. 


Qualquer outra estrada, solitária ou não, era puro enfado.

Dava, enfim, seu primeiro passo.

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Publicado por Renato Alt

17 de set de 2012

Simbiota

Ficou parado, atônito.

Passou-se tanto desde que haviam falado; tanto de tudo: de tempo, de gente, de emoção.

Era manhã típica de inverno, fria, escura, vento querendo arrancar cada folha que pudesse ter restado nalguma árvore, e a paisagem era toda um silêncio só, até onde a vista alcançava.

Na última vez em que a vira, já não havia os incômodos que tanto marcaram os últimos dias, ou aquelas pequenas impaciências que levaram aos grandes arroubos emocionais.

Quando decidira sair, ela o fizera pelo desespero de ambos, insuportáveis quando juntos, miséraveis quando distantes.

E então foram muitos os dias em que acordara sem saber ao certo por que fazê-lo, ou por que escovar os dentes, ou por que trabalhar. De fato, sentia ter entrado em um torpor que o mantinha à margem da vida, como se tudo fora sonho, como se tudo se definisse nele, e fossem irreais todas as pessoas com quem falava, e estranhas todas as palavras que ouvia.

Insistia, assim, existindo. Queria ligar para ela, mas haviam combinado não se falar por algum tempo: o telefone queimava-lhe as mãos, a vontade sufocava entalada na garganta.

Aos poucos, os dias voltaram a ter ar.

Foi quando naquela manhã típica de inverno, fria, escura, vento impiedoso, ele ouviu tocar a campainha. Era ainda cedo, e ele vestiu o roupão e os chinelos para ir até a porta.

Ao abri-la, então, lá estava ela, quatro degraus abaixo. Gorro na cabeça, cachecol, luvas de lã. Uma pequena mala de viagem, a mesma que usara quando saiu, e que agora descansava na calçada.

Em seus olhos, uma esperança trêmula, temerosa. Em seus lábios, um esboço de sorriso.

Era todo o silêncio que envolvia o mundo, que naquele instante parara de girar.

Ela perguntou com voz rouca, finalmente.

- Posso entrar?

Ele nada disse. Apenas virou o corpo de lado, dando passagem.
Entraram ela, a mala, e o suspiro que esteve preso por mais tempo do que imaginaram.

Sozinha, atrás deles, a porta fechou em um estalo suave.
E, a frente, um futuro se descortinava.

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Publicado por Renato Alt