29 de out de 2012

Díxis

Tinha medo enorme do mar, que fingia ser medo de outra coisa, mas que logo quando chegava à praia lhe era lançado na cara.

O fulgor das ondas e a imensidão daquilo que evitava - porque não via apenas como incontáveis litros de água, mas como um universo de criaturas, e coisas, e histórias e tragédias que, a cada arrebentação gritava "ei!" para quem estivesse ali, próximo.

Olhava e arriscava-se depois de muito pensar, carregando sempre a certeza de que ele, o mar, queria tragá-lo a si, em particular, e pensava se o queria porque sabia admirá-lo ou porque sabia evitá-lo com o medo infantil como o de uma criança que, ao assistir a um filme de aventura espacial, teme perder-se sozinha no espaço.

E o exemplo, claro, era exposição de outro temor.


Não tinha sentido, sabia, mas já sabia também que sentido não é coisa que tudo na vida precisa ter. Algumas coisas apenas o são.

Já estava perto, pisando a areia encharcada, vendo a espuma branca se retraindo, e lhe veio a imagem de um cão raivoso, e seu coração acelerou e ele recuou.

Está ali ainda agora, neste momento, e olha o contorno azul distante no horizonte. O ar salgado enchendo seus pulmões, enquanto de novo procura-se, para enfim mergulhar.

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Publicado por Renato Alt

17 de out de 2012

polímato

De repente percebeu-se como alguém que não deveria ter amigos.
Não que quisesse que assim fosse, não que rechaçasse aqueles que vinham estar consigo; mas estes, aos poucos, mostravam-se distantes demais da realidade que ele enxergava, mostravam-se incapazes de compreender (e ele sabia, não por própria culpa) o que almejava: e isto estava além, estava em outra esfera, em um universo incapaz de coexistir com tudo aquilo com que crescera.

Via enfim que a vida tornara-se outra coisa.


Mas havia que ser feito.

E lutara, como não? Lutara como quem não quer que seja assim, como quem não quer ser arrancado de sua existência conformista e confortável, como quem não pensa trocar o ar-condicionado nas noites quentes por uma rede contra mosquitos em um lugar do qual ninguém ouvia falar.

Ele estava ali frente à tela do computador, e via fotos, e via amigos, e via realidades passadas, e via sorrisos e elogios e cumplicidade com as quais, em sua maioria, não se identificava mais.

A vida, agora, era outra coisa. Era outra coisa, que ele não conseguiria conceber meses atrás.

Mas há que seguir adiante: muitos são os propósitos, e subitamente a própria existência tornara-se maior do que ele próprio: e tal sensação não pode, não admite, ser negligenciada.

Não importa.
Há que ser maior do que aquilo que descreve.

E segue, contando os dias, contando aqueles que vêem como ele vê: muito além do que alcançam os olhos.

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Publicado por Renato Alt

11 de out de 2012

Ábdito

Percebeu finalmente o que sempre estivera à sua frente, mas que, como todo mundo que conhecia, fizera questão de não enxergar há mais de trinta anos.

Parou um momento para pensar a fundo no que apenas lhe passara pela cabeça: "há mais de trinta anos".

Junto ao fôlego de um longo suspiro, revia fotos que sequer lembrava ter tirado ou de nelas estar presente, navegando por aqui e ali, no oceano de redes sociais que tranformam cada um de nós em ilhas.

E percebeu finalmente o que sempre estivera à sua frente: não há quem não possa ser substituído, esquecido, obliterado.

Palavras para dizer o contrário existem ao borbotões. Discursos emocionados nascem e morrem em questão de minutos. Quem se importa, silenciados os sons das palavras, silenciados os aplausos, disperso o grupo que as ouvia?

O sol continua a nascer. A engrenagem permanece funcionando, faça você parte dela ou não.

Mas não tomava tal epifania com tristeza: ao contrário, a percebia libertadora. Via, enfim, que por tantos anos fora o único responsável por acreditar haver amarras que nunca existiram, por acreditar haver sentimentos intensos que nunca foram sentidos, por pensar que era inteiramente seu um solo onde jamais fora visto.

O mundo era outro, afinal. O mundo era o mundo, e não o que ele entendia como tal.

Não negava a nostalgia com que permitia à lágrima descer, inadvertidamente. Não a enxugava, no entanto, sabendo que deveria escorrer até que fosse gota, e que caísse por seu próprio peso: só quando ela possuísse tal consistência conquistava o direito de lançar-se ao vazio, e de nele desaparecer.

Desligava, agora. Noite adentro, novos mundos precisariam ser construídos. Ele precisava, enfim, ser inserido na própria realidade.

Assim, dera boa noite a si mesmo, incerto do mundo para o qual acordaria.


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Publicado por Renato Alt

1 de out de 2012

Salmo

Que se dê eu logo vá, e logo faça, e logo realize, e logo retorne.

Que se dê que os que ficam permaneçam como estão, ou ainda, que sigam muito mais além, mas que não sejam estranhos quando eu voltar, ou ainda, eu a eles.

Que o que se vier a fazer persista, perdure, evolua. Que encontre mãos que o remodelem sempre que o mundo remodelar a si mesmo, não para conformar-se, mas para estar sempre como precisar estar para ser notado, confrontado, aceito.

Que aqueles que, quando da minha volta, ficarem naquela terra, não me esqueçam, mas contem comigo mesmo quando houver toda uma novidade de coisas, e que seja minha palavra sempre aquela que vai orientar, emendar, resolver, e jamais a que vai provocar discórdia, ruptura, negação.

Que o retorno seja simples, e que o mundo não se tenha tornado território irreconhecível, que o deslocamento que sinto agora desapareça, desfeito por conquistas que o soterrem, que façam que sequer seja lembrado.

Que a memória jamais se apague, mas que se expanda: que possa abrigar cada pequeno gesto, cada pequena vitória, e que permita ser acessada para dar voz a qualquer uma delas, quando for o momento apropriado.

Que, seja onde for, a essência seja sempre a mesma.
Amém.

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Publicado por Renato Alt