11 de out de 2012

Ábdito

Percebeu finalmente o que sempre estivera à sua frente, mas que, como todo mundo que conhecia, fizera questão de não enxergar há mais de trinta anos.

Parou um momento para pensar a fundo no que apenas lhe passara pela cabeça: "há mais de trinta anos".

Junto ao fôlego de um longo suspiro, revia fotos que sequer lembrava ter tirado ou de nelas estar presente, navegando por aqui e ali, no oceano de redes sociais que tranformam cada um de nós em ilhas.

E percebeu finalmente o que sempre estivera à sua frente: não há quem não possa ser substituído, esquecido, obliterado.

Palavras para dizer o contrário existem ao borbotões. Discursos emocionados nascem e morrem em questão de minutos. Quem se importa, silenciados os sons das palavras, silenciados os aplausos, disperso o grupo que as ouvia?

O sol continua a nascer. A engrenagem permanece funcionando, faça você parte dela ou não.

Mas não tomava tal epifania com tristeza: ao contrário, a percebia libertadora. Via, enfim, que por tantos anos fora o único responsável por acreditar haver amarras que nunca existiram, por acreditar haver sentimentos intensos que nunca foram sentidos, por pensar que era inteiramente seu um solo onde jamais fora visto.

O mundo era outro, afinal. O mundo era o mundo, e não o que ele entendia como tal.

Não negava a nostalgia com que permitia à lágrima descer, inadvertidamente. Não a enxugava, no entanto, sabendo que deveria escorrer até que fosse gota, e que caísse por seu próprio peso: só quando ela possuísse tal consistência conquistava o direito de lançar-se ao vazio, e de nele desaparecer.

Desligava, agora. Noite adentro, novos mundos precisariam ser construídos. Ele precisava, enfim, ser inserido na própria realidade.

Assim, dera boa noite a si mesmo, incerto do mundo para o qual acordaria.


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Publicado por Renato Alt

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