29 de out de 2012

Díxis

Tinha medo enorme do mar, que fingia ser medo de outra coisa, mas que logo quando chegava à praia lhe era lançado na cara.

O fulgor das ondas e a imensidão daquilo que evitava - porque não via apenas como incontáveis litros de água, mas como um universo de criaturas, e coisas, e histórias e tragédias que, a cada arrebentação gritava "ei!" para quem estivesse ali, próximo.

Olhava e arriscava-se depois de muito pensar, carregando sempre a certeza de que ele, o mar, queria tragá-lo a si, em particular, e pensava se o queria porque sabia admirá-lo ou porque sabia evitá-lo com o medo infantil como o de uma criança que, ao assistir a um filme de aventura espacial, teme perder-se sozinha no espaço.

E o exemplo, claro, era exposição de outro temor.


Não tinha sentido, sabia, mas já sabia também que sentido não é coisa que tudo na vida precisa ter. Algumas coisas apenas o são.

Já estava perto, pisando a areia encharcada, vendo a espuma branca se retraindo, e lhe veio a imagem de um cão raivoso, e seu coração acelerou e ele recuou.

Está ali ainda agora, neste momento, e olha o contorno azul distante no horizonte. O ar salgado enchendo seus pulmões, enquanto de novo procura-se, para enfim mergulhar.

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Publicado por Renato Alt

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