24 de nov de 2012

13006/ASR

Adormecera sentado por cima de uma das pernas, embalado pela monotonia do trem correndo sobre os trilhos, e da luz dos postes - um aqui e outro lá - que cruzavam seu olhar, fazendo as vezes de carneirinhos, porque os contava.
Estava longe, tão longe, daqueles que o entenderiam se simplesmente falasse, se olhasse, e abraçava sua mochila tentando roubar dela algum aconchego que restasse de casa, algum abrigo.

Mais gente entrara na cabine - todos os quatro leitos estavam, agora, ocupados. Em um minuto já conversavam uns com os outros. Tentaram falar com ele, é verdade, mas bastou indicar que não lhes entendia para que qualquer esforço fosse lançado de lado.

Bateram à porta, ofereceram jantar: aceitou, sem saber o que seria. Arroz, algo apimentado para jogar sobre ele, vegetais. Muito tempero, pouco gosto. Não comera sequer a metade.

Ocupava o leito de cima, e percebia quando volta e meia lançavam-lhe olhares curiosos. Já desistira de corresponder: a maioria das tentativas de diálogo transformava-se numa troca de sons incompreensíveis, frustrantes.

Voltava o olhar novamente para os postes. Para suas luzes. Seriam ainda tantas horas na companhia deles, que preferia que fossem suas as palavras de conforto. E aos poucos elas vieram, na forma de olhos pesados, pensamentos dispersos, e um sono embalado pelos dormentes do trilho.

Ao acordar, já não havia ninguém ali; estava sozinho como sempre estivera. Mas sabia, bastava mais uma parada e toda a cena novamente seria remontada.

Não se queixava: enquanto houvesse postes, e pensamentos, seguiria viagem.




 •••
Publicado por Renato Alt

8 de nov de 2012

Anfiguris

Na rua em geral era indiferença, as pessoas caminhando com rosto de nada.
Se paradas, passado o primeiro susto (presente da paranoia para todo cidadão de bem), em geral sorriam, mostravam solicitude, e fechavam a cara dois passos depois.

Percebera-se estranhando tudo aquilo, e sentiu aquele sentimento de urgência, de antecipação, como se fora o único a enxergar uma onda imensa que surgia engolindo o sol no horizonte e preparava para arrebentar sem dó bem no meio daquela rua por onde todos iam, vinham, voltavam, gritavam com carros e bicicletas e uns com os outros, e guardas distribuíam suas canetadas e senhoras ficavam irritadas por que precisavam abrir as bolsas na porta giratória do banco e o garoto chorando no carrinho enquanto sua mãe conversava vestida com roupa de academia bebendo água quente do squezze se achando gostosa com uma amiga que não ia à academia mas que dizia que dessa vez iria e ouvia "vai sim menina, vamos juntas" e o entregador levando nas costas um galão de 20 litros de água e que desviava dos carros que faziam fila para entrar no edifício-garagem lotado, esperançosos que alguém lá dentro resolvesse fazer qualquer coisa aqui fora e enfim eles pudessem estacionar e levar a vida adiante, afinal a vida não espera por ninguém e já estavam todos ali há incontáveis minutos suportando a barulheira da saída das crianças do colégio que só sabem falar entre si aos berros e corriam dando susto aparecendo na janela e hoje em dia já não dá pra saber quem é quem e os policias na esquina que ficavam conversando ao invés de dar um jeito nessa bagunça toda e naquela família de sem-teto que se mudou para debaixo da marquise da farmácia que fechara há tempos e que ficavam pedindo dinheiro a todos e à ninguém, porque todo mundo finge não ver e depois diz que morre de pena dessa gente que não tem teto quando chove e patricinhas que atravessam a rua numa corridinha que lembrava-o bem de quando as galinhas correm para pegar milho e elas, as patricinhas, escondidas por detrás de óculos caríssimos que escondem seus rostos de patricinhas e não disfarçam seu jeitinho de galinhas que nem milho tem para o qual correr mas que correm porque precisam ser vistas correndo sua corridinha de patricinhas.

Percebera tudo aqui e sentiu como se lhe fora dado um soco no cérebro.

Já nem lembrava o que fora fazer e muito menos o que pretendia perguntar a quem quer que fosse.

Fugiu de volta para onde pudesse continuar insano mas, ao menos, apenas consigo mesmo.



•••
Publicado por Renato Alt