8 de nov de 2012

Anfiguris

Na rua em geral era indiferença, as pessoas caminhando com rosto de nada.
Se paradas, passado o primeiro susto (presente da paranoia para todo cidadão de bem), em geral sorriam, mostravam solicitude, e fechavam a cara dois passos depois.

Percebera-se estranhando tudo aquilo, e sentiu aquele sentimento de urgência, de antecipação, como se fora o único a enxergar uma onda imensa que surgia engolindo o sol no horizonte e preparava para arrebentar sem dó bem no meio daquela rua por onde todos iam, vinham, voltavam, gritavam com carros e bicicletas e uns com os outros, e guardas distribuíam suas canetadas e senhoras ficavam irritadas por que precisavam abrir as bolsas na porta giratória do banco e o garoto chorando no carrinho enquanto sua mãe conversava vestida com roupa de academia bebendo água quente do squezze se achando gostosa com uma amiga que não ia à academia mas que dizia que dessa vez iria e ouvia "vai sim menina, vamos juntas" e o entregador levando nas costas um galão de 20 litros de água e que desviava dos carros que faziam fila para entrar no edifício-garagem lotado, esperançosos que alguém lá dentro resolvesse fazer qualquer coisa aqui fora e enfim eles pudessem estacionar e levar a vida adiante, afinal a vida não espera por ninguém e já estavam todos ali há incontáveis minutos suportando a barulheira da saída das crianças do colégio que só sabem falar entre si aos berros e corriam dando susto aparecendo na janela e hoje em dia já não dá pra saber quem é quem e os policias na esquina que ficavam conversando ao invés de dar um jeito nessa bagunça toda e naquela família de sem-teto que se mudou para debaixo da marquise da farmácia que fechara há tempos e que ficavam pedindo dinheiro a todos e à ninguém, porque todo mundo finge não ver e depois diz que morre de pena dessa gente que não tem teto quando chove e patricinhas que atravessam a rua numa corridinha que lembrava-o bem de quando as galinhas correm para pegar milho e elas, as patricinhas, escondidas por detrás de óculos caríssimos que escondem seus rostos de patricinhas e não disfarçam seu jeitinho de galinhas que nem milho tem para o qual correr mas que correm porque precisam ser vistas correndo sua corridinha de patricinhas.

Percebera tudo aqui e sentiu como se lhe fora dado um soco no cérebro.

Já nem lembrava o que fora fazer e muito menos o que pretendia perguntar a quem quer que fosse.

Fugiu de volta para onde pudesse continuar insano mas, ao menos, apenas consigo mesmo.



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Publicado por Renato Alt

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