15 de jan de 2013

Epônimo

Tudo, e de novo, tudo, mudara, como se toda partícula se alterasse em sua essência, como se fora o horizonte criatura cônscia de sua própria existência e de que representa, por assim dizer, aquilo que vislumbramos como possível, aquilo que admitimos como provável, e como se intencionalmente se reinventasse e se reapresentasse inteiro, de uma só vez, ignorando tudo aquilo que já foi e representou, e falasse em voz quase inaudível: "eis o que sou agora: eis aquilo que você há que deslumbrar".

Essa força trasmutadora então lhe joga ao chão, sobre os joelhos, e o deixa incapaz de levantar, de questionar, de ao menos enxergar que poderia haver outras possibilidades, caminhos ou escolhas.

Mas os olhos, firmes, não miram o chão: continuam mirando a linha distante e inalcançável, à qual há que caminhar, e subitamente já não parece nebuloso, ou impossível, ou inviável; ele carrega a consciência de que todo e qualquer valor que antes moviam as pernas agora tornaram-se outros, assim como tornaram-se outros os caminhos e o destino.

Ele sorri, agora, e estranha a vida que vivera até então.

Percebe a transformação e estufa o peito para um longo e profundo suspiro, que leva junto com o ar dos seus pulmões, o sopro que reclamara antes de ver-se recriado, renascido.

Sim, são inteiramente novos os ares de agora.
E seu fôlego renovado irá levá-lo em direção àquele tal horizonte, improvável, encantador, e absolutamente inatingível.


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Publicado por Renato Alt

2 de jan de 2013

Alba

Não sei se já falei, desculpe.
Prefiro repetir-me a deixar de falar.

É que por todo esse tempo, ou melhor, todo esse tempo, dediquei a pensar em você, sem saber se você, afinal, tem qualquer ideia disso.

Também não sei dizer se faria diferença, soubesse ou não. Algumas palavras que pensei dedicar somente aos seus ouvidos nunca tiveram oportunidade de chegar à boca; deixei, então, que chegassem à ponta dos dedos, ainda que tímidas, contorcendo-se para serem publicáveis, legíveis: gemidos, exceto quando muito bem ilustrados, tendem a ser ridículos; e, convenhamos, não tenho qualquer traço de Manara passeando por minhas mãos.

Se depois de tanto ainda é difícil que entenda, que ouça, mais do que o cansaço por fazer-me ouvir urge a vontade de ser compreendido, mesmo que preterido: é melhor ser claro do que viver à eterna sombra de uma possibilidade, de uma aspiração: não acredito no acalento da dúvida, enxergando-a, antes, como opção covarde.

Por isso coloco-me inteiro em suas mãos. São seus o que penso, o que sinto, o que sou, o que posso vir a ser. Não precisa me responder, se não houver nada a ser dito. Em nome do carinho que sei sentir por mim, sendo só o que sente, peço que me poupe de ouvir que sou um ótimo sujeito, ou algo que o valha. Em troca, prometo não constranger perguntando se leu.

Se o que houver nos próximos dias for apenas silêncio, juro guardá-lo como certeza preciosa de que nos entendemos; e saber que nele se resume tudo o que palavras não podem expressar.


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Publicado por Renato Alt