15 de jan de 2013

Epônimo

Tudo, e de novo, tudo, mudara, como se toda partícula se alterasse em sua essência, como se fora o horizonte criatura cônscia de sua própria existência e de que representa, por assim dizer, aquilo que vislumbramos como possível, aquilo que admitimos como provável, e como se intencionalmente se reinventasse e se reapresentasse inteiro, de uma só vez, ignorando tudo aquilo que já foi e representou, e falasse em voz quase inaudível: "eis o que sou agora: eis aquilo que você há que deslumbrar".

Essa força trasmutadora então lhe joga ao chão, sobre os joelhos, e o deixa incapaz de levantar, de questionar, de ao menos enxergar que poderia haver outras possibilidades, caminhos ou escolhas.

Mas os olhos, firmes, não miram o chão: continuam mirando a linha distante e inalcançável, à qual há que caminhar, e subitamente já não parece nebuloso, ou impossível, ou inviável; ele carrega a consciência de que todo e qualquer valor que antes moviam as pernas agora tornaram-se outros, assim como tornaram-se outros os caminhos e o destino.

Ele sorri, agora, e estranha a vida que vivera até então.

Percebe a transformação e estufa o peito para um longo e profundo suspiro, que leva junto com o ar dos seus pulmões, o sopro que reclamara antes de ver-se recriado, renascido.

Sim, são inteiramente novos os ares de agora.
E seu fôlego renovado irá levá-lo em direção àquele tal horizonte, improvável, encantador, e absolutamente inatingível.


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Publicado por Renato Alt

3 comentários:

lírios e fisio disse...

E que este tão insano momento seja eternizado na mesma proporção da força e vontade plena de viver... De tão inaudível, que saia um grito de esperança e realização plena...
Adorei! Bjo

Cátia Netto disse...

Que venha o novo: tempo e sensação, renovo e exatidão. Amei o texto. Bj Catia

Camilla disse...

Você tem esse dom de mesclar palavra e pensamento. Incrível, raro e estonteante, Renato. E que sigamos fitando a linha inalcançável, incansáveis.

Também tenho um blog: toca-raul.blogspot.com