25 de mar de 2013

Antevasin

O shampoo me diz "bem-vindo", e o condicionador lembra-me que, se eu quiser lavar a cabeça amanhã também, terei de pagar nova diária.

Já sei. Já nem o ouço.

Às vezes anseio - e ultimamente, mais do que gostaria - por lençóis que não cheirassem como novos a cada noite, por um bar que não estivesse reposto, por pacotes de amendoim caídos no chão, por uma cama desfeita, por refeições que não chegassem ao meu quarto esperando uma assinatura na comanda.

Anseio por menos sorrisos quando saio ou chego, menos formalidade quando perguntam sobre meu dia ou sobre o que achei da cidade, menos solicitude para resolver meus problemas.

Jamais encontrei identidade em qualquer lugar onde fui; não que a estivesse buscando; mas sei que tentava reconhecê-la, ainda que sem saber, sem pretender, sem tencionar; afinal, a maior busca é aquela pelo que nem sabemos estar procurando.

Cato-me aos pedaços por aqui e por ali, valendo-me de amizades "single serving" e de conversas aleatórias sobre promessas que jamais serão cumpridas, firmadas em curtos vôos e cumplicidades.

Não há destino certo, aprendi, e, por isso, jamais pude acreditar que este já fora escrito. A menos, claro, que seja, ele próprio, sua eterna busca; a menos, claro, que a satisfação só se possa entender por nunca deixar-se, a satisfação, encontrar.

Há pedaços de mim espalhados por todo o mundo. E enquanto houver vida, hei de buscá-los, um a um.


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Publicado por Renato Alt

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