14 de mai de 2013

CCU

Passara muito tempo, ele não sabia ao certo: sem dúvida muito mais do que o relógio insistia em marcar.

Os ouvidos tampados abafavam o falatório ininteligível da multidão que corria como se houvesse forma de escapar da revista da polícia, como se houvesse forma de não precisar justificar a entrada ou apresentar visto ou, talvez, de escapar de ter as malas abertas para qualquer olhar curioso.                                                       

Não parecia real: olhava para si como quem olha para um terceiro, não reconhecia as próprias pernas, os braços, a pele, o gosto em sua boca; sentia-se como um parasita que habitava seu corpo, que agora parecia não lhe caber: desconfortável, esquisito, dolorido, nada adaptado àquele calor que soprara da porta como a primeira chama de um fogo recém-aceso.

A camisa já pesava com o suor, os sons, ainda que distantes, aumentavam como se marchassem em direção aos ouvidos e a profusão de luz e cores atordoavam os sentidos, de maneira que precisou parar por um instante e respirar fundo:


estava ali. Sim, verdade, estava ali.

Agora tudo o que ficara para trás parecia mais para trás do que jamais pensava ser possível ficar, e tudo além era deslumbre, medo, empolgação, angústia e entusiasmo. Percebia os olhares curiosos que atraía, sabia que mexiam com ele mesmo sem entender as palavras. Não importava tanto agora.

O passo seguinte, afinal, era muito mais fácil do que o anterior, do que o que o tirara da inércia, do conforto, do comodismo e da vida bem ajeitada, com roteiro previsível e ápice que se descobre ainda no meio do enredo.

É hora de construir um novo final, em meio à areia, a sarees, e a sorrisos de quem os oferece mas não está acostumado a receber de volta.

Que venha o horizonte.



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Publicado por Renato Alt

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