4 de jun de 2013

Trilha

Era tanto o sono, e o cansaço, e as dores nas costas e nos joelhos, e era tanto o suor que quando parava de caminhar sentia o quanto sua camisa já pesava, encharcada, e era tanto o suor que quando parava de caminhar e tentava retomar fôlego apoiando-se nos mesmos joelhos doídos, para dar descanso às costas, via nos olhos daqueles que passavam um misto de espanto e de estranheza, mas nenhuma intençāo de ajudar.

As bolsas que trazia pareciam agora capazes de arrancar-lhe os braços, quando ele mais uma vez pensava poder continuar, e ousava tirá-las do chão: as alças comprimiam seus punhos, suas mãos arroxeavam, as pernas ameçavam falhar; mas ele, contudo, não poderia deixar o que trazia: era pra muitos, e para esses muitos era o tanto que precisavam, e há muito precisavam. Precisavam-no. E desde antes que o soubessem, antes que ele o soubesse, desde antes que começasse a caminhada, desde antes, ainda, que soubesse caminhar.

Ergueu-se, deixou reclamarem sozinhos seus músculos, juntas, tendões, coluna; pediu apenas à sua mente que lhe desse silêncio, que ignorasse a exigência do corpo que ameçava, amotinado, deixar-se cair, e cobrir-se daquela poeira e daqueles pés.
 
Os rostos voltavam a encará-lo, algo curiosos, algo aviltados, como se afronta fosse a insitência em seguir. Mas havia que seguir, ainda que não soubesse exatamente para onde seguia: há muito abrira mão de encontrar sentido; agora, bastava-lhe saber a direçāo. E esta, enfim, sabia.

Ainda não podia dizer para onde caminhava. Mas carregava também a certeza de que, quando tiver chegado, saberá.