21 de ago de 2013

Adagietto

Ela olhava da porta, distante que estava de tudo aquilo.

Dentro, no salão, as pessoas falavam alto, batalhando contra o som da música que exigia ser ouvida além de qualquer outra coisa, além das trivialidades, além dos pensamentos de quem ia e via.
Dançavam em frenesi, numa tentativa desesperada de pertencer à alguma coisa, numa tentativa de coletividade que ruía a cada mudança de compasso.

Da porta, ele observava.

Por duas ou três vezes rostos sorridentes e suados e esquecidos de todos os problemas do dia a dia vieram buscá-lo, aos quais respondeu com um sorriso e um aceno; ninguém pretendia saber porque é que não se juntava a eles, não havia tempo para isso: a música não espera.

E de seu lugar ele via as pessoas e a janela atrás delas, onde, um andar abaixo, ficava a rua, por onde passavam carros apressados em seu próprio universo e onde luzes de neón pediam atenção. "Neon on my naked skin": o verso surgiu em sua cabeça, num breve solo, e tão subitamente quanto surgiu, desvaneceu.

Sorriu.

Era quase manhã quando alguém olhou para a porta para vê-lo. Mas, então, já não estava mais lá.


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Publicado por Renato Alt

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