30 de set de 2013

Litopédio

É coisa que não tem nome, mas que sufoca, feito pedra presa no peito.

Não sabia dizer quando começara a sentir-se assim.

Tentou descrever muitas vezes: um nó, uma coisa que esmaga os pulmões e rouba o ar, e que se pensa muito nela, faz suar as mãos, e tremer, e acelera o coração, e ele precisa ou sair ou dormir ou beber para que se aquiete.

Não levavam a sério. Não acreditavam na verdade daquilo, e zombavam com conselhos inúteis, sugerindo mais companhia, mais coragem, mais sexo, mais roupa pra lavar. Tentavam abrir-lhe os olhos para o que já era óbvio, falando da sua posição privilegiada na vida, das beneces com que vive, do quanto existem pessoas com problemas de verdade enquanto ele ficava com suas queixinhas.

Não entendiam. Ninguém entendia.

Ele andava pelas calçadas carregando a pedra no olhar e nos ombros. Agora, já todos a viam. Não a escondia; e, por isso, era também julgado: ninguém parecia disposto a abrir mão do seu sorriso pasteurizado enquanto saboreavam amenidades no almoço. Chamavam-no amargo, chato, esquisito. De fato, percebe, tornara-se assim. Como não?

O vinho embebedava os demônios que esmagam seu peito, e lhe dava um sono ruim, leve, perturbador. Acordava angustiado, como se aumentasse o peso que carrega sempre. Sentia-no como algo físico, palpável, que pudesse ser extraído a bisturi e costótomo, e rogava aos céus algum alívio.

Não o tinha.

Carregava então consigo, dia após dia, o sorriso que aprendera a mostrar para evitar perguntas. As trivialidades que sabia responder para evitar respostas longas, e os últimos capítulos de todas as séries para fingir que em seus momentos de solidão dedicava-se a histórias contadas por outros, ao invés de admitir que tentava entender sua própria.

Carregava os dias como carregava a si mesmo. E a quem oferecia apoio, repetia como aprendera: "tudo bem, e você?"

E o cinza, de tão e então, crescia enquanto escuro.



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Publicado por Renato Alt

23 de set de 2013

Poente

Se você estivesse aqui, talvez eu pensasse outras coisas.
Talvez quisesse outras coisas, talvez buscasse outras coisas, talvez visse o futuro com outros olhos: os seus.

Talvez entendesse de outra forma o tanto que acontece, no tempo em que acontece, e percebesse que há outras interpretações para quando tudo parece, simplesmente, preto e branco.

Ou ainda poderia acreditar que algumas coisas acontecem porque há outras maiores acontecendo, e que, mesmo sem saber, me encaixo como peça fundamental nessa imensa engrenagem.


Talvez, se visse sua presença, me sentisse mais confiante, mais seguro, mais determinado. Talvez se tornasse mais evidente que, afinal, não é a meu respeito de que tudo de trata, mas a respeito de coisas que eu nem sequer virei um dia a saber, e mais, que pouco importa não sabê-las.

Talvez.

Mas talvez, só talvez, tudo sirva para trazer de volta uma única certeza: a de que pensar-se inócuo, desimportante, inaudível, pode ser a chave para permitir-se enxergar coisas que a cegueira da rotina escondia; e que o horizonte não é, afinal, apenas a linha que os olhos alcançam, mas aquela onde toda a história ainda está por ser escrita.


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Publicado por Renato Alt

9 de set de 2013

Shanti

Lá, de tão longe, os pensamentos que lhe vinham eram de tudo, e de nada.
Pensava nos caminhos que o levaram até ali, nos descaminhos, nos acertos e nos desgostos que, de uma forma ou de outra, desenharam a estrada por onde ele, sem saber, caminharia.

Havia paz, em algum momento. Era, afinal, o que pensava viver quando criança: algo diferente, pessoas diferentes, realidade diferente; assustava-se, no entanto, com o tamanho da diferença que agora lhe acordava todas as manhãs, na voz aguda que repete, como um gravador, a prestação de algum serviço que ele ainda não conseguira decifrar qual era; ou ainda o apito estridente que chegava pontualmente às 06h50 para recolher o lixo, com um carrinho de mão, condenando-o a mais um dia de acúmulo se o sono vencesse o aviso.

Havia angústia, ainda que sem nome, sem origem clara. Havia os pensamentos que se sobrepunham e amarravam-no à cama às vezes por horas, fitando o teto, sem forças para muito mais do que respirar.

Mas estava ali, e estava satisfeito por estar ali. De todas as decisões e dissabores, de todas as escolhas e tropeções, algo de certo havia feito para estar onde estava.

E deixados de lado o barulho e a confusão, uma nova interpretação se permite surgir: a do caos que é o diverso, o das pessoas que são cores e movimento, o da infinidade de vendedores de quitutes e de verduras, que tomam as calçadas e o ar com seus aromas.

Era um início, não tinha dúvidas; e tão diferente de outras vezes, ele, agora, já não se preocupava com o final.



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Publicado por Renato Alt