9 de set de 2013

Shanti

Lá, de tão longe, os pensamentos que lhe vinham eram de tudo, e de nada.
Pensava nos caminhos que o levaram até ali, nos descaminhos, nos acertos e nos desgostos que, de uma forma ou de outra, desenharam a estrada por onde ele, sem saber, caminharia.

Havia paz, em algum momento. Era, afinal, o que pensava viver quando criança: algo diferente, pessoas diferentes, realidade diferente; assustava-se, no entanto, com o tamanho da diferença que agora lhe acordava todas as manhãs, na voz aguda que repete, como um gravador, a prestação de algum serviço que ele ainda não conseguira decifrar qual era; ou ainda o apito estridente que chegava pontualmente às 06h50 para recolher o lixo, com um carrinho de mão, condenando-o a mais um dia de acúmulo se o sono vencesse o aviso.

Havia angústia, ainda que sem nome, sem origem clara. Havia os pensamentos que se sobrepunham e amarravam-no à cama às vezes por horas, fitando o teto, sem forças para muito mais do que respirar.

Mas estava ali, e estava satisfeito por estar ali. De todas as decisões e dissabores, de todas as escolhas e tropeções, algo de certo havia feito para estar onde estava.

E deixados de lado o barulho e a confusão, uma nova interpretação se permite surgir: a do caos que é o diverso, o das pessoas que são cores e movimento, o da infinidade de vendedores de quitutes e de verduras, que tomam as calçadas e o ar com seus aromas.

Era um início, não tinha dúvidas; e tão diferente de outras vezes, ele, agora, já não se preocupava com o final.



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Publicado por Renato Alt

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