28 de out de 2013

Corolatos

Não sabia.
Mas, afinal, quem pode dizer?


Fora uma noite/dia que se antecipara a tantas: envoltas em medos, incertezas, dele; covardia, desmentida, escondida.

Afinal, quem pode dizer?

Agora coloca-se a água de um oceano, a poeira do tempo e a promessa obliterante de um recomeço, de novo alento, de algo que não se pensava mais possível, mas que despontava, insistente, no horizonte.

Do lugar onde de onde nada mais se enxergava, ele colocava-se de joelhos, sem forças para pôr-se em pé: sabia do tempo passado, sabia da sua imobilidade, sabia dos seus motivos que, por mais que explicados, jamais seriam compreendidos em sua plenitude. Colocava-se de joelhos, em cansaço e súplica, quando já não havia mais o que dizer, a não ser a esperança que seus olhos o transmitissem, ainda que esses buscassem, incansáveis, o chão.

Quem pode dizer?

Sabia não haver fórmula para o que apresentava-se; sabia não entender como lidar, como envolver-se, como trabalhar. Sabia, no entanto, que havia pelo que, e por isso colocava-se incansável e perdido entre afirmações infelizes, comentários inadequados, conclusões sinceras: e, como malabarista, esforçava-se para mostrar quais dentre tantas eram fiáveis.

Não esperava aplausos ao final. O que fazia, não fazia por algo que se deixa ouvir por meio minuto até se perder no infinito eterno do silêncio; fazia pelo sorriso que o compreenderia, e que seguiria com ele, aplaudindo ou não, até o final dos seus dias.


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Publicado por Renato Alt

22 de out de 2013

Evigilare

Conformar-se não se conformava, apenas via o estado de coisas e sabia-se impotente para mudá-lo.

Não que não houvesse tentado: tentara, e muito, e argumentou mostrando razões e porques, mas já não havia nos ouvidos dos outros qualquer disposição para entender o que lhes era dito; eram, e permaneciam, como sempre foram e permaneceram, sem pensar que era necessário mudar, e mais ainda, considerando afronta que propusesse tal coisa.

Em pé sobre a pedra branca e fria, na galeria onde não se podia ver o teto, construída há mais tempo do que a memória consegue alcançar, ele permanecia em frente ao Doze. E eles, os Doze, em suas formas imóveis, olhavam com seus olhares frios e eternos o pobre reverente em sua súplica.

Não sabia ele, o suplicante, que os Doze há muito não detinham os mesmos poderes de eras passadas, o mesmo fulgor de tempos esquecidos, o mesmo querer, saber e realizar que fizeram florescer e devastar civilizações das quais sequer se ouvira falar.

Sobre a pedra branca e fria, cercado por paredes infinitas e teto insondável, a súplica pairava no ar, incerta do caminho a seguir. As imagens de cada um dos doze, recobertas por limo e descrença, fingiam não disputar a posse dela.

Houve um estrondo, então; inaudível, mas sentido, feito a erupção de um vulcão pensado extinto: e o pensamento feito súplica tornou-se pedido ouvido; era mais do que o suplicante, em sua descrença, esperava.

Ainda não era sinal de mudança: mas, ao menos, havia esperança.


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Publicado por Renato Alt

15 de out de 2013

Augure

Quando veio a noite - não a noite de todos, com televisão e jantar e cores e conversas e pequenos desleixos e filmes tardios - mas a noite onde já tudo isso se foi, quando os postes iluminavam não mais do que a calçada, quando o som de um carro à distância cortava o silêncio, quando os pensamentos faziam pesar a cabeça; quando veio a noite, essa noite, então ele se viu.

E era só ele, e o chão de madeira velha que gemia a cada passo, e o cheiro de umidade e de bolor, e a luz de um néon mal instalado que, ruidosamente, piscava alertando a ninguém que o bar estava aberto. Quando veio essa noite, era só ele, e uma ou duas caixas de papelão, com tudo e com nada dentro delas: velhas fotografias, revistas que não sabia por que guardara, um brinquedo que trazia desde a infância, um porta-retrato cuja foto fora, uma eternidade antes, rasgada em um momento de raiva. Estava ele, o porta-retrato, ali, por pura teimosia: não lhe tinha qualquer utilidade.

Quando veio essa noite, quando em sua sala havia apenas uma ou duas caixas de papelnao com tudo e com nada dentro, a madeira cheirando a umidade e a bolor, o ruído do néon e a luz dos postes que iluminavam apenas a calçada, ele se viu enfim como estava: realmente só; em um lugar onde não havia braço que o alcançasse, onde não havia telefonema que lhe acalmasse ou bebida que afogasse a angústia.

Nessa noite, vira esquecida em seu novo quarto uma velha mesa de madeira, deixada ali desde o início dos tempos, e uma cadeira recostada à tanto na parede que nela já lhe deixara a marca; gerações de aranhas viveram às custas das teias entre uma e outra, e vinha ele agora, apocalíptico, romper toda.

Da bolsa nos ombros tirou o caderno de couro, que comprara em dias felizes em Covent Garden, quando nada importava: dinheiro, emprego, ideias. Tinham um ao outro, que mais importava?

O caderno mostrava suas poucas linhas riscadas; o tempo que pensava então dedicar a ele fora gasto vivendo.

Puxando a cadeira do seu descanso junto à parede, vencendo sua resistência teimosa para armar-se (era das dobráveis), jogou caderno e caneta por sobre aranhas revoltadas com a intromissão. Puxou lápis e apontador (não gostava de canetas; as achava definitivas demais), e suspirou olhando para o escuro do cômodo à frente.

Era essa, afinal, a companhia que lhe restava. E que via, agora, ser a única sempre presente, a única com que sempre pôde contar.

Num fôlego, pôs-se a escrever.



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Publicado por Renato Alt

9 de out de 2013

Titereiro

Quisera ele que o mundo fosse como moldara.
Quiséramos, como não, todos nós.

Cores, firmamento, sons e silêncios, dispostos em perfeita harmonia, em perfeito caos - conforme aprouvesse - sustentando o palco da criação definitiva: onde desfilavam aqueles que, por ele criados, responderiam aos seus anseios, às suas vontades, aos seus devaneios; aos seus caprichos: mais ainda, os ocultos.

No mundo então criado, passearia a história em passos largos, apressados, ansiosos por descobrir o que traria o amanhã; ainda que fora decepção, discórdia, inconstância: importava só que fossem elementos da vida, e eles, dentre todos, são os mais extremos; são os que os apontam.

Fechado no mundo dos seus pensamentos, aprisionado no outro ao seu redor, pensava ele, sozinho, aos cantos, falando alto, incompreensível: "coitado", pensavam aqueles que, com sorrisos falsos, diziam amenidades sobre o garoto. E seus pais, cansados de argumentos, meneavam a cabeça, ansiosos por passar para o assunto seguinte.

E ele, em seu mundo perfeito, controlava as coisas perfeitas: todos presentes onde deveriam estar, com quem deveriam estar, vendo o que deveriam ver, experimentando, vivendo, existindo.

Já ele, em seu mundo perfeito, percebia que tal não o era, porque o controlava, e que perfeição sem imperfeição é uma ideia que anula a si mesma.

Já ele, em seu mundo perfeito, escolhia ignorar essa verdade que lhe estapeava: conformado, resignado, imóvel e anacrônico: como a comodidade, como a poeira indiferente que, sem ter quem lhe assopre, se assenta confortável sobre infinitudes de solidão.



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Publicado por Renato Alt