15 de out de 2013

Augure

Quando veio a noite - não a noite de todos, com televisão e jantar e cores e conversas e pequenos desleixos e filmes tardios - mas a noite onde já tudo isso se foi, quando os postes iluminavam não mais do que a calçada, quando o som de um carro à distância cortava o silêncio, quando os pensamentos faziam pesar a cabeça; quando veio a noite, essa noite, então ele se viu.

E era só ele, e o chão de madeira velha que gemia a cada passo, e o cheiro de umidade e de bolor, e a luz de um néon mal instalado que, ruidosamente, piscava alertando a ninguém que o bar estava aberto. Quando veio essa noite, era só ele, e uma ou duas caixas de papelão, com tudo e com nada dentro delas: velhas fotografias, revistas que não sabia por que guardara, um brinquedo que trazia desde a infância, um porta-retrato cuja foto fora, uma eternidade antes, rasgada em um momento de raiva. Estava ele, o porta-retrato, ali, por pura teimosia: não lhe tinha qualquer utilidade.

Quando veio essa noite, quando em sua sala havia apenas uma ou duas caixas de papelnao com tudo e com nada dentro, a madeira cheirando a umidade e a bolor, o ruído do néon e a luz dos postes que iluminavam apenas a calçada, ele se viu enfim como estava: realmente só; em um lugar onde não havia braço que o alcançasse, onde não havia telefonema que lhe acalmasse ou bebida que afogasse a angústia.

Nessa noite, vira esquecida em seu novo quarto uma velha mesa de madeira, deixada ali desde o início dos tempos, e uma cadeira recostada à tanto na parede que nela já lhe deixara a marca; gerações de aranhas viveram às custas das teias entre uma e outra, e vinha ele agora, apocalíptico, romper toda.

Da bolsa nos ombros tirou o caderno de couro, que comprara em dias felizes em Covent Garden, quando nada importava: dinheiro, emprego, ideias. Tinham um ao outro, que mais importava?

O caderno mostrava suas poucas linhas riscadas; o tempo que pensava então dedicar a ele fora gasto vivendo.

Puxando a cadeira do seu descanso junto à parede, vencendo sua resistência teimosa para armar-se (era das dobráveis), jogou caderno e caneta por sobre aranhas revoltadas com a intromissão. Puxou lápis e apontador (não gostava de canetas; as achava definitivas demais), e suspirou olhando para o escuro do cômodo à frente.

Era essa, afinal, a companhia que lhe restava. E que via, agora, ser a única sempre presente, a única com que sempre pôde contar.

Num fôlego, pôs-se a escrever.



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Publicado por Renato Alt

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