9 de out de 2013

Titereiro

Quisera ele que o mundo fosse como moldara.
Quiséramos, como não, todos nós.

Cores, firmamento, sons e silêncios, dispostos em perfeita harmonia, em perfeito caos - conforme aprouvesse - sustentando o palco da criação definitiva: onde desfilavam aqueles que, por ele criados, responderiam aos seus anseios, às suas vontades, aos seus devaneios; aos seus caprichos: mais ainda, os ocultos.

No mundo então criado, passearia a história em passos largos, apressados, ansiosos por descobrir o que traria o amanhã; ainda que fora decepção, discórdia, inconstância: importava só que fossem elementos da vida, e eles, dentre todos, são os mais extremos; são os que os apontam.

Fechado no mundo dos seus pensamentos, aprisionado no outro ao seu redor, pensava ele, sozinho, aos cantos, falando alto, incompreensível: "coitado", pensavam aqueles que, com sorrisos falsos, diziam amenidades sobre o garoto. E seus pais, cansados de argumentos, meneavam a cabeça, ansiosos por passar para o assunto seguinte.

E ele, em seu mundo perfeito, controlava as coisas perfeitas: todos presentes onde deveriam estar, com quem deveriam estar, vendo o que deveriam ver, experimentando, vivendo, existindo.

Já ele, em seu mundo perfeito, percebia que tal não o era, porque o controlava, e que perfeição sem imperfeição é uma ideia que anula a si mesma.

Já ele, em seu mundo perfeito, escolhia ignorar essa verdade que lhe estapeava: conformado, resignado, imóvel e anacrônico: como a comodidade, como a poeira indiferente que, sem ter quem lhe assopre, se assenta confortável sobre infinitudes de solidão.



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Publicado por Renato Alt

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