25 de nov de 2013

NEOQEAV

Foi o dia em que decidira distribuir seus amores: ao vento, ao sol, ao calor que lhe fazia escorrerem gotas apressadas pelos rosto, à poeira que lhe enchia os poros e à luz que lhe cegava enquanto percorria, em velocidade aturdida, os quilômetros vazios à sua frente, naquele deserto que consumia tantas almas esperançosas de vida melhor.

Pé pesado, prensado, pegajoso, penado: arruaceiro, cortando estradas e estacionamentos e restaurantes e pousadas e motéis de neón falhado, lagartos, placas, outdoors e pontos de interesse geológico, areia, cactos, fiapos de roupas e atrações que não viam atraídos.

Decidira distribuir seus amores a quem não os queria, a quem os percebia, a quem pouco se importava, a quem sequer sabia que existiam: era o dia em que se deixava ser, se deixava pra lá, era o que era, e pronto, e isso por si só se bastava.

Era o dia em que distribuía seus amores, para que - e em secreto confessava - talvez em troca recebesse algum: fosse das flores sob o sol, fosse do vento, fosse do calor que lhe fazia escorrer gotas pelo rosto, fosse da poeira, fosse do que fosse.

Era ele só, e só, ao que viesse.



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Publicado por Renato Alt

18 de nov de 2013

Sopor Aeternus

Quando a pequena porta foi aberta, mal se podia enxergar o que havia lá dentro. O cômodo, pequeno demais, abrigava o que parecia ser uma barbearia, há muito não usada. A chama de uma pequena vela bruxuleava imprimindo sombras na parede que, por algum motivo, lembravam o mar.

O mar, no entanto, estava longe demais.

Quando a pequena porta foi aberta, mal se podia enxergar o que havia lá dentro. O cômodo, pequeno demais, abrigava o que parecia ser um quarto, improvisado, imprevisto, improvável. A chama de uma pequena vela bruxuleava imprimindo sombras no chão, cobrindo vez ou outra com uma nesga de luz o cobertor puído que estava sobre aquilo que não era mais do que uma sugestão de cama.

Quando a pequena porta foi aberta, mal se podia enxergar o que havia lá dentro. O cômodo, pequeno demais, abrigava o que era o final de uma história desconhecida. A chama da vela, já cansada de tanto mostrar, mantinha-se heróica, única testemunha de um estertor solitário, única remanescente de um velório vazio; das outras, há muito apagadas, restavam somente de cera, gotejando da mesinha para o chão: as únicas lágrimas vertidas pelo corpo sem nome.

(Ao jovem desconhecido | ? - 15 de novembro de 2013, Dakshin Barasat, Índia)


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Publicado por Renato Alt

11 de nov de 2013

Al Fine

Olhava o mar como quem olha para um amigo.

Lançava sobre ele seus pensamentos, seus temores, e não tinha vergonha de, diante dele, chorar. Na verdade, em nenhum outro lugar sentia-se tão à vontade, tão ele mesmo: agora, gravata solta, paletó largado na areia, sapatos e meias sobre ele. Enterrava os pés na areia gelada, indiferente a quaisquer olhares que pudessem vir sobre ele.

Mas era noite, e era dia de semana: à essa hora, todos acompanhavam as notícias do dia, entre uma garfada e outra, entre um assunto e outro, à mesa do jantar.

Não havia mesa do jantar para ele. Havia o tanto de perguntas que fazia ao amigo, e ouvia com clareza a reposta para cada uma delas quando suas ondas rebentavam na areia.

O ar salgado lhe enchia os pulmões, irritava os olhos, e era um deleite. Viera direto do trabalho: sentava em cima da sua pasta, apoiava os cotovelos sobre os joelhos, volta e meia olhava os pés e então olhava novamente o mar.

Decidira que seria hoje. Perguntou ao mar se estava, ele, pronto também.
Em uma onda, o mar disse que sim.

Então levantou-se, tirou a gravata, e caminhou solene em direção à água.

Como num abraço, a corrente foi levando-o para mais e mais longe, enquanto ele, sereno, deixava o mundo na areia.


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Publicado por Renato Alt

4 de nov de 2013

Cachão

E com a desilusão, faz-se o quê?

E com a desilusão, velha conhecida, faz-se o quê?

Há aquilo que em nós peleja para fazer acreditar que o agora, o novo, é de alguma forma diferente: mesmo que, como Dom Quixote, enxerguemos dragões em moinhos de vento.

Mas se não os enxergarmos, pelo que lutamos?

Antes a peleja pelo que não se pode tocar do que o conformismo da indiferença; antes a fatiga da luta inglória que o engordar pelo sedentarismo. Antes vermo-nos cansados e carecas e cambaleantes e alienados do que petrificados na certeza absoluta e convicta de que nada mais poderia ser feito: a tentativa é, em todas as instâncias, mais gloriosa que o maior fracasso.

Há, é claro, aqueles dias em que somos, a nós mesmos, insuportáveis, e quando nossos pensamentos parecem jamais silenciarem, e quando, naquele súbito descontrole, deixamos escapar palavras histriônicas que, uma vez proferidas, não têm volta: como a oportunidade perdida e a flecha disparada.

Resta a esperança do recomeço: se não para o mesmo fim, ao menos para um fim mais reluzente, onde algo de maior parece esperar ao alcance da mão.

Agora, já não reclamo os momentos perdidos; reclamo, muito, aqueles que espero vir.


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Publicado por Renato Alt