11 de nov de 2013

Al Fine

Olhava o mar como quem olha para um amigo.

Lançava sobre ele seus pensamentos, seus temores, e não tinha vergonha de, diante dele, chorar. Na verdade, em nenhum outro lugar sentia-se tão à vontade, tão ele mesmo: agora, gravata solta, paletó largado na areia, sapatos e meias sobre ele. Enterrava os pés na areia gelada, indiferente a quaisquer olhares que pudessem vir sobre ele.

Mas era noite, e era dia de semana: à essa hora, todos acompanhavam as notícias do dia, entre uma garfada e outra, entre um assunto e outro, à mesa do jantar.

Não havia mesa do jantar para ele. Havia o tanto de perguntas que fazia ao amigo, e ouvia com clareza a reposta para cada uma delas quando suas ondas rebentavam na areia.

O ar salgado lhe enchia os pulmões, irritava os olhos, e era um deleite. Viera direto do trabalho: sentava em cima da sua pasta, apoiava os cotovelos sobre os joelhos, volta e meia olhava os pés e então olhava novamente o mar.

Decidira que seria hoje. Perguntou ao mar se estava, ele, pronto também.
Em uma onda, o mar disse que sim.

Então levantou-se, tirou a gravata, e caminhou solene em direção à água.

Como num abraço, a corrente foi levando-o para mais e mais longe, enquanto ele, sereno, deixava o mundo na areia.


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Publicado por Renato Alt

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