25 de nov de 2013

NEOQEAV

Foi o dia em que decidira distribuir seus amores: ao vento, ao sol, ao calor que lhe fazia escorrerem gotas apressadas pelos rosto, à poeira que lhe enchia os poros e à luz que lhe cegava enquanto percorria, em velocidade aturdida, os quilômetros vazios à sua frente, naquele deserto que consumia tantas almas esperançosas de vida melhor.

Pé pesado, prensado, pegajoso, penado: arruaceiro, cortando estradas e estacionamentos e restaurantes e pousadas e motéis de neón falhado, lagartos, placas, outdoors e pontos de interesse geológico, areia, cactos, fiapos de roupas e atrações que não viam atraídos.

Decidira distribuir seus amores a quem não os queria, a quem os percebia, a quem pouco se importava, a quem sequer sabia que existiam: era o dia em que se deixava ser, se deixava pra lá, era o que era, e pronto, e isso por si só se bastava.

Era o dia em que distribuía seus amores, para que - e em secreto confessava - talvez em troca recebesse algum: fosse das flores sob o sol, fosse do vento, fosse do calor que lhe fazia escorrer gotas pelo rosto, fosse da poeira, fosse do que fosse.

Era ele só, e só, ao que viesse.



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Publicado por Renato Alt

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