16 de dez de 2013

Lacrimosa

Quando o via ali, deitado, imóvel, não via a ele, amigo que o acompanhara em tantas aventuras quanto desventuras, e que partia agora para a derradeira, uma em que seguia só, porque assim decidira, uma vez em que o mundo tornara-se demasiado pesado para carregá-lo sozinho, como sempre insistira em fazer.

Olhando para ele, lembrava dos caminhos que trilharam: o tanto que viveram, construíram, dedicaram a outros. Lembrava do que permaneceria muito após a terra já ter consumido ambos. Lembrava das pessoas que ficaram pelo caminho, das namoradas cujos rostos volta e meia surgiam na memória, e que tinham seus nomes evocados em infindáveis pores do sol.

Quisera chorar, porém não lhe vinham lágrimas aos olhos, embora a dor no peito fosse tanta que não encontrava nome. Quisera chorar, porque o mundo parecia de repente ter se tornado lugar diferente, distante, mais alienígena do que nunca.

Quisera chorar, mas sabia que este lugar e essas gentes não entenderiam seu choro.

De longe, solene, viu quando a terra abraçou o leito de madeira, e com a mão levantada deu seu adeus, como sempre faziam, antes de seguir caminho.

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Publicado por Renato Alt