30 de jan de 2014

Caíssa

E vem você, agora, perguntar.

Agora, quando finalmente as lágrimas secaram, quando finalmente o sono reencontrou-me à noite e me ofereceu o abrigo por meses negado; agora que o frio amainou, e que o abraço do cobertor me aquece melhor que aqueles seus.

Agora que o mundo seguiu adiante, e a ouço à porta.

Sim, vou deixá-la entrar. Como não? Mas talvez você não reconheça tantas das coisas. Foram rearrumadas, outras passadas adiante; outras, ainda, já sem uso para quem quer que fosse, lançadas fora.

Há mais espaço, agora. A luz, assim como o ar, circula melhor. Respiro fundo enquanto sinto o sol em meu rosto, e recosto à janela enquanto a vida segue apressada lá fora, sentindo-me parte dela de novo.

É claro que vou deixá-la entrar.
Se há palavras que encontraram seu caminho até aqui, haverá espaço para todas.

Se elas, em seu esforço, apontarão o que há de vir, apenas ele próprio, o futuro, ousará dizer.

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Publicado por Renato Alt

7 de jan de 2014

Dacriocisto

Passara o tempo que pontuava, que determinava indeciso o que havia de acontecer. Fora o tempo da confusão, do medo, por que não? Sempre fora de sua natureza, sabia, a inconstância, embora carregasse, nos olhos e ombros, ambição desmedida.

Passara o tempo e se afirmava insolúvel, e o era, já que dele se bradava o irremediável, o imperdoável, a dor nutrida e acariciada como bicho de estimação, insaciável por lembranças e possibilidades.

Era o tempo que apontava adiante, que escrevia mesmo sem conhecer, sem pretender, acolhido por noites sem fim sob cobertores solitários, preguiçoso demais para lançar-se ao desconhecido. Era o tempo que permanecia pétreo, imutável, irascível, esmagando com seu peso os verbos a conjugar, esmagando com seu peso qualquer fôlego e voz.

Era o tempo, e se foi, levando então consigo aquele tanto de futuro.


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Publicado por Renato Alt