27 de out de 2014

Solilóquio

Há não tanto tempo mudara para aquela imensidão gelada, e ainda se flagrava surpresa quando, pela janela, via o punhado de árvores que pontuavam aqui e ali todo o campo coberto de neve, e que, no horizonte, confundia-se com o céu cinzento.

Não havia aquecimento na casa, e ela assim queria. Nada de eletricidade: a luz que aquecia o ambiente vinha de um velho lampião a óleo.

E fora ele, o lampião, encontrado repousando em uma caixa que pertencera à avó, o que fizera encher-se de sentido uma idéia romântica e anacrônica de autossuficiência, de simplicidade, de querer menos; ah, sempre quisera tanto mais, e buscara tanto mais, e trabalhara por tanto mais! Mas foi esse achado, pertencente a um tempo onde havia mais pessoas e menos coisas, mais apertos de mão e menos e-mails, que fez vir sobre si, avassaladora, uma onda de desapego e de cansaço, que fez vir sobre si uma urgência de fuga, de desaparecimento, de estar apenas consigo mesma.

Lembrara da casa de caça construída e esquecida. Se pudesse, nem mesmo teria usado o carro para chegar até lá. Agora já não importava: estava coberto pelo mesmo manto branco, silencioso e cúmplice, que parecia simplesmente abraçá-la por inteiro, e compreendê-la, e respeitá-la.

Com um sorriso, mantinha juntas as mãos dentro de luvas, e o gorro, e a manta enrolada ao corpo; sobre a cama, descansando de sua narrativa, Salinger e Caufield repousavam, enquanto a madeira estalava, cuidadosa para não despertá-los, deixando-se consumir pelo fogo que fervia a água para o chá.

Mas ele, o chá, ciente de suas responsabilidades, trouxe os três de volta a si, quando pediu à chaleira que assoviasse educadamente para avisar-se pronto, distribuindo no ar o cheiro de erva-mate.

E foi ela novamente para a cama, para o chá, e para si, sem pressa de voltar.

•••
Publicado por Renato Alt