17 de nov de 2014

Vértice

Quando deu o passo seguinte em direção à porta, o chão pareceu sumir:
nem estava certo de que era ali onde queria estar.

Tanto tempo atrás, quando buscando por si, encontrara um endereço qualquer, não dera a ele a importância que tinha: afinal, era onde estaria alguém que o deixara pra trás, que nunca o procurou, que nunca preocupou-se em fazer-se entender e que, provavelmente, nunca pensara que um dia deveria gastar seu tempo com essa preocupação.

Mas como em tudo o mais na vida, ações têm consequências.


Odiava pensar em si mesmo como consequência; não conseguia, no entanto, pensar de forma diferente.

Por isso estava ali, de pé, naquele corredor de tacos castigados pelo sol, numa casa esquecida de um bairro onde ninguém jamais ia, diante de uma porta fechada que representava a grande incógnita sobre seu passado.

Ele tinha o documento em mãos. Já o havia tirado do envelope pardo e o segurava como quem segura uma pistola pronto a disparar; e suas mãos tremiam, como tremem as de quem não tem o costume de atirar, mas que está pronto a fazê-lo, ainda que uma única vez.


Ouviu alguém tossir no outro lado da porta fechada.


Com os sentidos aguçados como estavam, percebeu o esforço com o qual uma voz cansada demais para o que quer que fosse perguntou quem estava ali.

Ele não respondeu.


Tinha lágrimas descendo pelo rosto. Sem perceber, amassava o papel que lhe dizia quem era, de quem viera, mas que não lhe explicava qualquer porquê.

Subitamente a risada de alguém lá fora roubou sua atenção: uma menina, com muito mais casacos do que o frio exigia, corria atrás de uma pipa que o vento tentava guardar para si.

- Quem está aí? - ouviu, uma vez mais, entre tosses, paredes e uma porta fechada.

Guardou o documento no envelope. Escreveu seu telefone nele. Deixou-o encostado à porta e deu meia-volta.

Enquanto entrava no carro, viu que a menina conseguira pegar a pipa.


E por algum motivo não podia evitar pensar que o vento, conscientemente, sorria para ele, dizendo que a menina só tinha a pipa porque ele, o homem, entendera que algumas coisas não precisam de explicação, ou que essa apenas tornaria tudo pior: assim como o vento que parou de soprar apenas os segundos necessários para deixar o brinquedo ao alcance.

O frio obrigou-o a girar algumas vezes a chave na ignição, mas por fim o motor concordou em levá-lo embora.

A busca de toda uma vida parecia, agora, resolvida, uma vez que deixada nas mãos de quem buscara.

O choro era então de alívio, enquanto os faróis cortavam a noite que começava a chegar.


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Publicado por Renato Alt

10 de nov de 2014

Acontistas

Ouvia os ruídos da madrugada, e neles ouvia a si mesmo; ainda que não percebesse.

Entendia aqueles que partiam ruidosamente em carros velozes rumo a destinos desconhecidos, em busca de sensações que não sabiam existir, procurando direção onde não havia, por definição, qualquer uma.

Eram todos rostos sem forma, corpos sem forma, espíritos indefiníveis em uma noite qualquer.

Silenciavam os gritos em suas cabeças ensurdecendo-se com a batida eletrônica, dançando dentro de cofres, apelidados de casas noturnas, e dali lançavam-se em direção a qualquer outro destino que os livrasse do dia, como se pudesse livrá-los deles mesmos; o dia é, afinal, o espelho: confrontar-se era inconcebível; onde estariam os sorrisos, os olhos brilhantes, a maquiagem reluzente, o corpo que mal responde por si?

Completos estranhos, apresentavam-se às 9h na segunda-feira, ansiando apenas por dias mais apressados; assim, chegada a sexta, lançariam-se de novo à uma noite qualquer, em busca sabe-se-lá do quê.


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Publicado por Renato Alt

3 de nov de 2014

Trítono

O sol era um insulto.

Passara a noite imerso em pensamentos, relembrando momentos que pareciam parte de outra vida.

E eram, como não?

De onde estava, olhando pela janela, viu o dia entregar-se à noite, exausto, levando consigo um tanto de esperanças e sonhos daqueles que despertaram acreditando que enfim seria agora, hoje, a mudança; seria a hora em que as coisas aconteceriam, quando a grande oportunidade apareceria e quando eles, com unhas e dentes, a agarrariam.

Mas não foi. O tempo, indiferente, deixara-se passar como se nenhuma responsabilidade tivesse sobre nenhum de nós.

E qual tem, afinal?

De onde estava, viu a noite receber o dia, com sofreguidão, sabendo que o ciclo se repetiria.

"Ah", deixou escapar enquanto fechava as cortinas para manter-se na escuridão.

Ansiava pela noite, e pela suas longas e silenciosas horas, que nada cobram de si.



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Publicado por Renato Alt